Palavra do Bispo
Nossa Senhora Aparecida

Você já deve ter ouvido esta pergunta: Por que os católicos veneram a Virgem Maria?

Porque ela foi escolhida por Deus para ser a Mãe de seu Filho Divino, Jesus. Simples, não? Mas para alguns não parece. Em primeiro lugar, é bom lembrar que não foi a Igreja que fez Maria Mãe de Jesus. Depois, já no Evangelho vem mencionado que o Senhor fez nela maravilhas e, por isso, “todas as gerações a chamarão bem-aventurada” (cf Lc 1,48-49). Ora, funda-se em Deus a fé e a veneração do povo em Maria. Sabemos que Maria não gerou ao Deus Criador, mas gerou Jesus, que é homem e Deus. Por isso, em tempos antigos, os fiéis começaram a chamar Maria de “Theotókos”, em grego, Mãe de Deus. Ora, por que não venerar a Virgem Maria, se inclusive ela é a Mãe de Deus? Até mesmo ateus, lendo o Evangelho, são capazes de entender que pelo ensinamento bíblico Maria é, de fato, Mãe de Deus. Por exemplo, Ludwig Feuerbach (século XIX), filósofo ateísta, escreveu: “Onde se afunda a fé na mãe de Deus, afunda-se também a fé em Deus Filho e em Deus Pai” (cf. A Essência do Cristianismo). Alguns, porém, dizem que só se deve adorar a Deus. Claro. Nós, católicos, só adoramos a Deus, a Trindade Santa, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Virgem Maria, que chamamos com carinho de Nossa Senhora, nós não a adoramos, mas a veneramos. Estes mesmos dizem, então, que adorar e venerar são a mesma coisa, e que isso não se pode fazê-lo, que está errado. Embora popularmente as pessoas em geral usam um termo pelo outro, etimologicamente são distintos. Adoração se deve só à divindade. Veneração é tributo de grande respeito, reverência e consideração que, por exemplo, devotamos a Maria e aos santos. Para resumir, nós católicos veneramos sim Nossa Senhora bem como nossos santos e santas. Desde os primeiros tempos da Igreja, os cristãos veneravam os mártires e confessores da fé pelo testemunho de sua vida cristã heroica e os consideravam respeitosamente como modelos exemplares de fé e intercessores em favor daqueles que peregrinam pelas estradas deste mundo.

Amanhã festejaremos solenemente Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida/SP, constitui-se no maior centro de peregrinação religiosa da América Latina, recebendo anualmente milhões de peregrinos vindos de todas as partes do Brasil. A devoção começou no ano de 1717, quando pescadores, pescando no Rio Paraíba, próximo a Guaratinguetá, puxaram nas redes, na primeira vez, o corpo de uma pequena imagem negra rompida, na segunda vez, a cabeça, que formava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Na terceira vez, as redes vieram abarrotadas de peixes. O povo viu nesse fato um sinal sobrenatural. A imagem foi chamada de “Aparecida” e colocada numa pequena capela. A partir daí começou uma devoção que se agigantou no que é hoje. Devotos vão a Aparecida para pedir graças, agradecer as recebidas e pagar promessas. São milhares os milagres que se contam terem acontecido pela intercessão da Virgem. Vale a pena recontar o milagre da menina cega de nascença de Jaboticabal. “Por serem muito devotos de Nossa Senhora Aparecida, os membros da família Vaz de Jaboticabal - SP rezavam e falavam muito sobre os acontecimentos referentes à Nossa Senhora Aparecida. O casal desta família tinha uma menina que era cega de nascença e que sempre ouvia atentamente ao que falavam. A menina tinha uma vontade muito grande de ir até à Igreja. Naqueles tempos, onde tudo ainda era sertão, ficava muito difícil de se chegar até lá. Mas com muita dificuldade, fé e perseverança, mãe e filha chegaram às escadarias da Igreja, quando surpreendentemente a menina cega de nascença exclamou: ‘Mãe, como é linda esta Igreja!’. Daquele momento em diante a menina que era cega de nascença passou a enxergar normalmente”.

Pois bem, Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Principal em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio XI. A imagem já havia sido coroada anteriormente, em nome do Papa Pio X, por decreto da Santa Sé, em 1904. A proclamação oficial feita por Pio XI se realizou numa grande manifestação popular de um milhão de pessoas, no Rio de Janeiro, então capital federal, com o reconhecimento oficial do Governo do país, pela presença do seu Presidente, Getúlio Dornelles Vargas, e de outras autoridades civis, militares e eclesiásticas. Era o Brasil reconhecendo oficialmente sua Padroeira. Pela Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, foi decretado oficialmente feriado o dia 12 de outubro, dedicando-se este dia à devoção a Virgem. Também nesta lei, a República Federativa do Brasil reconhece oficialmente Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

São Bernardo de Claraval, grande devoto de Nossa Senhora, recomendava: “Chama Maria com fervor, e ela não deixará de lado a tua necessidade, pois ela é misericordiosa ou, melhor, a mãe da misericórdia”. É a mesma coisa que o nosso povo diz: “Peça à Mãe que o Filho atende”. Tem gente que fica com ciúmes de Deus, acha que nós, católicos, valorizamos mais a Mãe do que o Filho. Qual o filho deste mundo que não se orgulha quando tem a sua mãe valorizada, amada, engrandecida, e chamada de Senhora? Não concorre com Deus não, embora seja o único, segundo a Bíblia, que deve receber neste mundo o nome de “Senhor”, a expressão de adoração que lemos, por exemplo, em Jo 20,28: “Meu Senhor e meu Deus”. Chamamos a Mãe de Deus de Nossa Senhora porque ela merece esse respeito, sem qualquer conotação com o sentido específico do termo bíblico de Senhor. Jesus agiria diferentemente dos filhos deste mundo quando o assunto é o respeito à mãe? Antes de deixar este mundo, do alto da cruz, Ele viu a sua Mãe e o discípulo a quem amava, e disse-lhes: “Mulher, eis teu Filho”. E ao discípulo: “Eis tua Mãe”. Isto quer dizer que Jesus, neste momento derradeiro de consumar a Redenção, deu a mulher que mais amava ao discípulo que mais amava. Por extensão, deu a ela a missão de ser Mãe dos discípulos, isto é, dos cristãos e, portanto, da Igreja. Ela permaneceu junto aos discípulos, rezando com eles à espera do Espírito Santo (cf. At 1,14). Assim nós, católicos, cremos que Maria continua realizando seu papel de Mãe amorosa de toda a Igreja e de cada um de seus filhos até a segunda vinda de Cristo, a consumação do Reino de Deus.

Tenhamos sempre nos lábios e no coração a oração da Ave Maria. A primeira parte é tirada da Bíblia, a segunda, que é uma invocação, nasceu, em tempos antigos, da piedade popular, a qual a Igreja, no século XVI, a aprovou e oficializou como a mais bela prece mariana que costumamos rezar com a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai Nosso.