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publicado em: 14/07/2018
Dom Sevilha: “Desatadora de Nós”

Em Augsburgo, na Alemanha, existe um quadro que foi pintado em 1700 pelo artista Johann Schmidtner, retratando a Imaculada Conceição, mas, com algumas peculiaridades inspiradas no pensamento de Santo Irineu: “Eva por sua desobediência, atou o nó da desgraça para o gênero humano; Maria, por sua obediência, o desatou”.

No quadro, temos ainda anjos que entregam à Maria uma fita com nós grandes e pequenos, alguns nós apertados e outros mais folgados. A fita simboliza o pecado original, aquele de Adão e Eva, que provocou tantos nós que enlearam a humanidade. Nossa Senhora, com sua obediência, desatou o nó da desobediência original. Também nós, os filhos de Maria, somente poderemos desatar os nós da nossa existência e do nosso mundo, através da obediência ao Pai.

Dois anos atrás tive a graça de almoçar com o Papa Francisco na sua casa, chamada Casa Santa Marta, que é uma hospedaria do Vaticano para os Cardeais e hóspedes do Papa. Chamou-me a atenção um grande quadro de Nossa Senhora Desatadora de Nós exatamente no salão de entrada, onde o Papa nos recebeu. Soube mais tarde que foi o Papa Francisco quem trouxe essa devoção para a Argentina quando era Cardeal de Buenos Aires e de lá, espalhou-se para o Brasil e América Latina.

A Mãe de Jesus, denominada por São Paulo como nova Eva, fez exatamente o contrário da antiga Eva. Aquela desobedeceu, esta foi obediente ao Pai, até o fim. Eva arrancou o fruto da árvore para si, Maria, a nova Eva, teve o fruto do seu ventre pregado na árvore da Cruz. Também nós, a exemplo de Maria, quando decidimos e nos esforçamos para obedecer a Deus, os nós que os nossos pecados provocam se desmancham.

Quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais a sua vida vai ficando mais desenrolada. Isto não que dizer que não terá problemas ou sofrimentos, pois não existe cristianismo sem cruz, como afirmou o próprio Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz d e siga-me” (Mt 16,25).

Diante dos sofrimentos e tempestades da vida, sempre teremos Jesus nos dizendo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu peso, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu peso é suave, e o meu fardo e leve” (Mateus 11,28).

Diante de tal Mãe, quero repetir os sentimentos da oração de um santo bispo brasileiro: “Mãe, não quero nada. Vim apenas te ver. Em nome de todos os homens que vivem te suplicando, em nome de todos os irmãos que já se aproximam de ti de mãos estendidas, deixa que eu esqueça um momento o vale de lágrimas, a terra das tristezas, nossa miséria de mendigos, nossa pobreza de criaturas, nossa tristeza de pecadores, para saudar-te, Rainha nossa e Virgem Mãe de Deus! Bendito seja o Criador de teu olhar boníssimo que tem o dom de acender a esperança nas almas desalentadas, nos corações em desespero à beira do abismo, do irremediável, do fim! Bendito seja o Criador de tuas mãos sem mancha, por onde passa toda luz que tomba sobre a escuridão dos homens! Bendito seja o Criador de tua sombra suavíssima, pois já notei, Mãe querida, que bastam a tua lembrança, o teu perfume, para encher a solidão da vida, a solidão do homem. Mãe, não quero nada. Vim apenas te ver... (Oração de Dom Helder Câmara)”.

Dom Sevilha, OCD.