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publicado em: 04/08/2018
Dom Sevilha: “A música calada”

Artigo publicado no Jornal da Cidade de Bauru - 05/08/2018

“Contratempo” é o nome de um documentário onde há depoimentos de jovens moradores de favelas do Rio de Janeiro, que encontraram na música o sentido e o rumo para a própria vida.

Uma jovenzinha, com os olhos marejados e a voz embargada, conta que diante da morte do seu irmão, que morreu “daquele jeito” (assassinado), ela agarrou-se ao violoncelo e tocava dia e noite para não pensar em nada, para não enlouquecer. Até hoje, disse ela, “quando estou tocando falo o que estou sentindo para o violoncelo e ele expressa e amplifica meus sentimentos para o auditório”.

A Liturgia é para a Igreja como o que o violoncelo é para a menina enlutada, na medida em que possui muitos componentes: Palavra de Deus, Eucaristia, demais sacramentos e sacramentais, símbolos e expressões artísticas, etc.

A Liturgia deve ser como um violoncelo afinado e tocado com aptidão e com alma. A Liturgia desafinada é aquela mal preparada, improvisada. A Liturgia com aptidão e com alma é aquela onde o fiel deseja sinceramente encontrar-se com Deus, para abrir-lhe o coração, falar as suas angústias e dores, louvar e agradecer as inúmeras graças recebidas, adorar o Senhor Deus, reconhecendo-lhe toda honra e toda glória.

A alma da Liturgia é o Espírito Santo de Deus e não as nossas emoções, nossas reflexões ou a nossa criatividade. Embora tudo isso faça parte da nossa participação na Liturgia. Mas, é o som do violoncelo, provocado pelos toques do músico, que contagiam, tocam e transformam todos os ambientes da alma humana. O músico toca com as mãos o instrumento e o instrumento toca a alma com o som. Também a Liturgia é realizada com as mãos humanas, mas, o toque transformador na alma é feito pelo invisível e poderoso sopro do Espírito Santo.

A presença e ação de Deus, tanto nas Escrituras como na História, manifestam-se frequentemente em meio a sons: trovão, estrondo, sibilo da brisa suave e mansa. O grande místico e poeta carmelita São João da Cruz descreveu a “música calada” como “conhecimento sossegado e tranquilo, sem ruído de vozes; onde a alma repousando no Deus Amado sente ao mesmo tempo a suavidade da música e a quietude do silêncio” (Cant. Esp. XV, 25).

Muitas pessoas têm medo do silêncio e pânico de ficar sozinhas. Aliás, a origem grega da palavra pânico refere-se ao mitológico deus Pã, protetor dos rebanhos e dos pastores; acreditava-se que os ruídos que se ouviam nas montanhas e nos vales eram provocados por esse deus.

Portanto, os medos interiores, os sons e as vozes confusas que povoam a alma de muitas pessoas fazem com que elas fujam do silêncio reflexivo e, pelo contrário, buscam mais barulho e agitação exteriores para, de algum modo, abafar a gritaria e agitação malucas que carregam dentro de si.

Paradoxalmente, essas pessoas barulhentas, por dentro e por fora, não conseguem escutar e falar profundamente com as pessoas ao seu redor. A oração, comunitária ou individual, necessariamente faz a alma silenciar diante do tremendo mistério de Deus. Na oração eu me calo e Deus fala. No silêncio e na solidão sonora da alma Deus se manifesta. Consequentemente, a paz habita o coração do crente, pois ele confia sua vida nas mãos do Pai que o criou, o acompanha nessa vida e o acolherá na Eternidade.

“Senhor, meu coração não é arrogante, nem soberbo é o meu olhar. Não ando atrás de grandezas, nem de coisas que estão além de minhas forças. Pelo contrário! Moderei e fiz calar meus desejos. Como criança desmamada no colo de sua mãe, como criança desmanada, assim está a minha alma. Israel põe tua esperança no Senhor, desde agora e para sempre!” (Salmo 131). Amém.

Dom Sevilha, OCD.