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publicado em: 22/09/2018
Dom Sevilha: “O que discutíeis pelo caminho?”

Não é fácil ensinar, muito menos aprender. Deus é o sábio e paciente Mestre, e nós os discípulos aprendizes. O Mestre é divino e tem pedagogia perfeita, nós, os alunos, temos a cabeça dura e dificuldade de aprender.

Caminhando e ensinando aos seus discípulos, Jesus lhes faz uma pergunta: o que discutíeis pelo caminho? Ao longo do caminho da vida temos muitas discussões, muitas preocupações, muitos sonhos e ilusões. O conteúdo da discussão sempre tem alguma importância para os debatedores, pois, geralmente, não discutimos por temas que não nos interessam. Quanto maior for a importância do assunto, maior será o calor da discussão.

Vamos excluir aqui aquelas pessoas que discutem pelo puro prazer (ou desprazer) de discutir. Para elas o importante não é o conteúdo da altercação, mas vencer a discussão, ter a última palavra e ter sempre a razão.

Há também os sádicos que provocam uma discussão, embora não estejam interessados nem no assunto, nem em ganhar na argumentação, mas somente em provocar para ver “o circo pegar fogo”.

A pergunta de Jesus, “o que discutíeis pelo caminho”, ressoa hoje no nosso coração e nos leva a um profundo exame de consciência. Na caminhada da minha vida quais são as coisas para as quais dou maior importância? Muitos, infelizmente, dão importância exagerada a coisas secundarias e inúteis. Vou também excluir aqui aquelas pessoas que, assumidamente, dão importância ao que é mau, por exemplo, o corrupto que se vangloria da sua esperteza, como se fosse algo bom e, por absurdo, ainda se sente superior aos outros.

Para um ser humano normal, mormente para os cristãos, será considerado importante somente aquilo que é objetivamente bom. O mal nunca será um valor, mas sempre, um desvalor. Infelizmente, às vezes, por sermos criaturas fracas e falíveis, misturamos as coisas e tomamos o mal pelo bem e vice-versa.

São Tomás de Aquino já alertava que, normalmente, ninguém busca o mal pelo mal, mas julga erradamente e vê o mal como sendo um bem. No fundo da alma de um viciado, o objeto do seu vício é um bem, mesmo sabendo racionalmente que aquilo é um mal. Somente no dia em que reconhecer interiormente, não cerebralmente, que aquilo é um mal, ele começa a libertar-se do vício.

Na confusa crise de valores do nosso mundo atual temos até a demoníaca inversão onde o bem é visto como um mal. Por exemplo, para muitos a religião é algo ruim, criada pelo próprio homem. Para outros a família tradicional deve ser destruída. Para a maioria da população o bem comum e o que é público têm pouco valor.

Na ocasião da pergunta de Jesus, infelizmente, os discípulos “pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (V.34). Absurdamente o assunto da discussão entre os discípulos do Mestre da humildade foi saber quem dentre eles era o mais importante. Jesus, o divino Mestre, na sua paciência infinita, vai ensinando aos seus discípulos, de então e de agora, que o mais importante é aquele que se põe a servir aos outros, aquele que gasta sua vida ajudando as pessoas que estão ao seu redor.

De fato, a grande história da humanidade mostra que os seus protagonistas foram aqueles que fizeram o bem.

A pequena história do nosso cotidiano também revela que as grandes pessoas que passam pela nossa vida e fazem a diferença, são aquelas que se doaram, viveram mais para os outros do que para si mesmas. Esqueceram-se de si, preocupando-se mais com as dores dos outros do que com as próprias. E, por isso mesmo são pessoas profundamente felizes!

Aqui está o segredo e o paradoxo do Evangelho: quanto mais egoísta é alguém, mais infeliz. Pelo contrário, quanto mais esquecido de si e preocupado com o sofrimento alheio, mais feliz. Daqui decorre a constatação de alguns pais e mães serem felizes, outros não. Alguns profissionais serem felizes, outros não. Alguns clérigos serem felizes, outros não. Algumas pessoas serem felizes, outras não.

Aquele que é tomado pelo desejo de ser importante e superior aos outros, seja econômica, intelectual, profissional, física e até “espiritualmente”, viverá em um inferno já nesse mundo, pois será tragado pelas frustrações diante dos inevitáveis fracassos, pela avidez insaciável e sem limites, pela inveja diante do sucesso alheio.

Sobre os desejos mesquinhos escreveu sabiamente Bernard Shaw: “Na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente”.  Enfim, termino parafraseando São João Crisóstomo com uma pequena trova:

Deus nos pede para semear, não para colher. Deus nos pede para trabalhar, não para vencer.

Dom Sevilha, OCD.