Notícias
publicado em: 22/10/2018
“Não sabeis o que pedis”: Desejar, verbalizar e reorientar os desejos

Artigo de Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA
21/10/2018

Desde pequenos damos sinais de que somos feitos de desejos. Basta observar qualquer bebezinho, que mesmo antes do primeiro ano de vida já expressa os seus desejos refletidos nos seus olhinhos bem abertos e espertos.

Nessa idade as crianças estendem as mãozinhas para alcançar qualquer coisa que “desejam”, levando à boca para conhecer, porque desejam. Somos desejo! O leite materno já não basta, mesmo que ainda não tenhamos dentes para mastigar. Alguns anos depois, são capazes de realizar birras homéricas se os seus desejos não forem realizados.

Nascemos e desejamos: ar, alimento, calor, afeto, relações, vida. Desejamos a vida na sua plenitude, não um pouco de vida ou migalhas de existência, mas uma vida plena, total!

Podemos dizer que a nossa vida é a história dos nossos desejos, das nossas mãos estendidas para colher os frutos da terra (Gn 2,9). Nossa vida é a história dos desejos realizados sim, mas também não realizados, fracassados, equivocados ou fora de foco, ou ainda, dos desejos ocultos que trazemos “in pectore”.

Muitas vezes são desejos projetados em miragens, nas promessas de felicidade que depois acabam traindo e enganando. De certa forma, a desilusão é filha da ilusão. Mesmo quando lembramos dos apóstolos ou discípulos de Jesus. Um dia desejaram abandonar tudo para segui-lo. Os doze seguem Jesus movidos pela intuição de que os seus desejos serão realizados. O problema é que, assim como nós, trazem consigo toda a ambiguidade do mundo dos desejos e parece que não basta terem encontrado o Cristo e decidido deixar tudo por ele.

O Evangelho de domingo passado (Mc 10,17-30) parecia ter deixado claro a distinção entre os doze e aquele homem rico, quando o apresentou como alguém que se distanciou do Mestre e do seu chamado, desaparecendo na multidão. Não sabemos quem era, qual o seu nome. Enfim, ele não fez história, não deixou rastro, a não ser a notícia do seu rosto triste e sombrio, indo embora.

Por um lado, havia o seu desejo pelo bem, mas um desejo não purificado. O homem, conhecido também como o jovem rico, saiu desiludido com a resposta de Jesus. Por outro lado, havia os discípulos, que se diferenciavam dele, porque haviam abandonado tudo para seguir Jesus.

Pareceria que essa escolha feliz asseguraria, de uma vez por todas, que eles não seriam decepcionados e desiludidos pelos desejos equivocados da idolatra do poder, da ascensão e do sucesso, mas não!

Dois deles chegam a verbalizar o desejo, aproximando-se de Jesus e expressando-o. O seu desejo é o motor que põe em movimento toda a existência da pessoa.

Mas esse movimento, nesse caso, leva para onde? Para o que? Na verdade, parece mesmo um Pai Nosso às avessas: seja feita a nossa vontade!

Jesus, ele mesmo, movido pelo desejo, mas desejo de cumprir a vontade do seu Pai, se dirige para Jerusalém, para a sua Paixão. Tinha acabado de falar, e pela terceira vez, sobre o seu destino, um verdadeiro pesadelo para os discípulos (Mc 10,32-34; Mc 8,31; 9,31).

É certo que ele havia mencionado também uma ressurreição. Mas ninguém sabia, de fato, o que quis dizer com esse ressurgir. Resumindo, trata-se de palavras capazes de suscitar uma mistura de ansiedade e estranheza. Aquelas impressões que, às vezes, é preferível esquecer o quanto antes, porque parecem insustentáveis.

A verbalização do desejo de Tiago e João, de certa forma, foi muito mais do que uma simples nota “fora de tom”. Trata-se de uma estratégia inconsciente para levar a conversa para o que, realmente, interessa para eles, que é o seu próprio desejo.

Jesus, o Mestre, sabe muito bem dos desejos que povoam o coração dos discípulos e, por isso mesmo, tenta ajudá-los nesse difícil processo, do qual somente um verdadeiro Mestre pode se encarregar.  

Pra falar a verdade, chamando-os de filhos do trovão desde o início (Mc 3,17), parecia que o próprio Jesus já havia desmascarado os seus desejos quando demonstraram serem discípulos poderosos e fortes como o trovão durante uma tempestade, excessivamente zelosos (Mc 9, 38-39; Lc 9, 54-55).

Pode ser que tinham compreendido isso a partir daquele apelido tão original, considerando que, junto com Pedro, são sempre eles que são escolhidos por Jesus para assistir as manifestações extraordinárias do seu poder.

Jesus pergunta o que eles querem que ele faça para eles, porque com isso quer ensinar também que não nos conhecemos, de fato, diante de Deus, enquanto não soubermos o que, realmente, queremos.

Na verdade, o Mestre estava lhes oferecendo a oportunidade de reler e reorientar o seu desejo. Eles, contudo, com muita pressa, rapidamente, dizem a Jesus o que querem, revelando o seu desejo, que é sentar à direita e à esquerda na sua glória. Não o pedem para já, imediatamente, pois parece que aprenderam a ter paciência, demonstrando que podem esperar, mas no fundo, não só subverteram o Pai Nosso, como também a “confissão”, antecipando o pedido para o que viria depois. Não deixa de ter algo de positivo nessa atitude, pois, pode ser sinal de uma abertura do coração à Luz, como elemento para a purificação do próprio coração, ainda que não soubessem disso naquele momento.

Contudo, Jesus o revela: “vocês não sabem o que estão pedindo”, isto é, vocês não conhecem, verdadeiramente, os seus desejos, tampouco a origem e o destino deles.

Os filhos do trovão são mesmo impulsivos: “podemos”! É como se dissessem: “não sabemos muito bem o que significa beber o teu cálice ou receber o teu batismo, mas sabemos que se fizermos isso, o nosso desejo será realizado! Isso nos basta! Na verdade, eles vão beber mesmo, mas a questão da glória e dos lugares de honra não é como imaginavam.

Os outros dez ficaram furiosos com os dois irmãos, manifestando, na verdade, o mesmo desejo e a mesma incompreensão dos motivos da viagem de Jesus para Jerusalém.

Com uma paciência infinita Jesus continua com a sua pedagogia e os chama para perto de si e fala sobre o que eles são: “vós sabeis...” (Mc 10,42). Sabeis que o desejo dos poderosos é ter cada vez mais poder. Um poder inconsistente que pode ser obtido e mantido somente na forma do domínio e da opressão que, na verdade, revela como são frágeis as seguranças que tem. É o desvio do desejo!

É desvio porque o anseio pela grandeza, pelo absoluto, foi o próprio Deus que colocou no coração humano. Ser grandes, ser os primeiros! Na verdade, não é de todo ruim obedecermos ao desejo do nosso coração, se aprendemos também a reler e a reorientar tais desejos, focalizando a direção correta, tendo em conta o paradigma da grandeza, que é o próprio Deus.

A grandeza desse Deus é existir para servir, para morrer, para resgatar a vida dos últimos e para fazer deles os primeiros, conscientes de que ser os primeiros significa servir como só Deus sabe servir. Esse é o poder divino que Deus veio nos conceder.

Quem de nós, então, desejará percorrer o caminho do Filho do Homem que veio para servir? Quem desejará deixar transfigurar a sua humanidade pela glória de Deus? Este é o verdadeiro desejo que trazemos dentro de nós, é o desejo impresso nas Escrituras para que se realize em nossas vidas.

Só assim, então, não só seremos “justos”, porque Ele nos justificou, por aquele que carregou as nossas iniquidades e deu a sua vida em expiação por nós, como nos avisa o profeta Isaías na primeira leitura (Is 53,2. 3.20-22), tomando para si as nossas fraquezas, mas também podemos com Ele servir, participando desse último lugar em favor dos irmãos. Esse lugar revela o lugar do Primeiro e do Maior, que realiza e anuncia o amor que o próprio Deus é.