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publicado em: 26/10/2018
Frei Alfredo: “O que queres que eu te faça?”

(Reflexão sobre a Palavra de Deus no Trigésimo Domingo do Tempo Comum)
Por Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA
Missionário Inaciano


Talvez, a nossa indigência ou miséria nos levassem a pedir ao Senhor um alívio de uma situação difícil, quem sabe um milagre que nos restituísse a vida, a saúde, o conforto financeiro, ou uma vida melhor?

O pobre, certamente, pediria segurança para a sua vida, que lhe é negada pela justiça e pelo direito. Se fôssemos um coxo, com certeza, pediríamos a restituição da mobilidade para caminhar finalmente, para além dos limites que impedem os nossos movimentos. Se fôssemos cegos, sem dúvida, pediríamos a visão para enxergar e voltar a nos movimentar e a viver de modo seguro e autônomo.

A verdade é que quanto mais hipóteses elaboramos, mais é possível pensar em qual seria a nossa reação diante de um milagre recebido, como também que tipo de fé teria nos movido a pedir o que pedimos.

Logo que conseguiu enxergar, o cego de Jericó começou a seguir Jesus pelo caminho. Não mais um caminho onde a semente lançada, a Palavra, é levada embora pelos pássaros (Mc 4,4), mas o caminho da própria Palavra, uma Pessoa viva, capaz de dar novamente a vida e os bens da vida, “o Filho de Deus” e não “o filho de Davi”.

Ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Entenda-se por vida tudo aquilo que eleva, resgata, dignifica e salva o ser humano e não aquilo que o fere de morte. Nada de espadas, nada de pena de morte! Vida!

Eis o verdadeiro plano de libertação divina do homem. Isso deve ter ficado rapidamente evidente para o cego Bartimeu. Ele deve ter percebido que a sua verdadeira cegueira não era tanto física, mas, consistia no fato de insistir, como todo o povo de Israel, numa espera messiânica equivocada, à espera por um rei salvador que, assim como Davi, reunisse de novo o seu povo com a violência da espada e a dominação dos demais.

Bartimeu compreendeu que a sua verdadeira cegueira era justamente esta e, com isso, nos ajuda a entender também que todos os obstáculos que dela derivam não permitem que o Senhor nos cure integral e plenamente.

Esta nova consciência permite eliminar todos os obstáculos porque gera uma novidade radical, isto é, a fé no projeto de Deus: “Vai, a tua fé te salvou”! (Mc 10,52). É essa fé que permite a Deus realizar em nós, por nós e conosco, grandes coisas.

Outra curiosidade, pelo menos para mim, é compreender o que terá passado na mente de Tiago e João que, há pouquíssimos versículos (Mc10, 26-40), tinham pedido a Jesus “um favor”: “concede-nos sentar-nos na Tua glória, um à Tua direita, outro à Tua esquerda” (Mc 10, 35-37)? O que, diante da fé e do milagre de Bartimeu, resulta como reflexão sobre a fé deles a respeito de quem é o Messias, que já seguiam há algum tempo?

Certamente, o que aconteceu com Bartimeu é uma das respostas que Jesus, obviamente, no seu estilo, concede à “cegueira” da fé dos seus discípulos. Parece mesmo uma resposta a uma doença bem mais perigosa e difícil de curar do que a cegueira, que leva a buscar e pedir, não a salvação de Deus, mas aquilo que sugere a ideia equivocada que os homens têm da salvação de Deus.

Prova também que, não obstante, pela terceira vez Jesus lhes tivesse anunciado, de maneira íntima e especial, o plano salvífico de Deus através da Sua Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 10,32-34), os discípulos insistiam em não compreender. Na verdade, nem tanto em não compreender, mas em resistir e não aceitar.

Bartimeu, de fato, é a resposta à cegueira dos discípulos que não enxergam e, portanto, não podem interpretar o plano salvífico do Senhor como único caminho para a salvação.

Não conseguem ver porque não conseguem se desapegar das suas seguranças, aliás, frágeis seguranças, assim como fez Bartimeu: “o cego jogou o manto”! (Mc 10,50). Estão obstinados em criar novamente, baseados em fantasias meramente humanas, “escamas” sobre os olhos, verdadeiras deficiências da fé!

Como defender-nos desse perigo e evitar que também nós, discípulos do terceiro milênio, tenhamos a ideia de uma salvação segundo os critérios humanos? Como predispor-nos e permitir que o Senhor nos cure de todas as deficiências da nossa fé?

A propósito, podemos acolher na primeira leitura do profeta Jeremias uma indicação: “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel” (Jr 31,7-9).

Com poucas palavras o profeta nos recorda quem é que salva! Por mais equivocada que tenha sido a ideia que fizemos de Deus e de Jesus, ainda é possível corrigi-la, renunciando a tudo o que, comprovadamente, queremos realizar sem Ele. Para tanto, é preciso começar a deixar de lado as nossas próprias seguranças e, com coragem, seguir os seus passos num caminho seguro de salvação.

Abramos as nossas bocas, não para tentar defender-nos ou justificar-nos ou, ainda pior, apresentar a Deus as nossas propostas meramente humanas. Soltemos a nossa voz para anunciar tudo o que Deus fez por nós e fará de nós através da Paixão, Morte e Ressurreição do Seu Filho!

São Paulo também nos sugere uma ajuda para chegarmos a esse ponto de amadurecimento da fé, na segunda leitura (Hb 5,1-6), que nos recorda a existência de uma dignidade sacerdotal que é serviço à salvação, através da intercessão a Deus por todos, dignidade comum a todos os batizados.

Trata-se de um dom, uma escolha divina que desceu sobre nós por Graça e que ninguém pode atribuir-se por mérito próprio. Portanto, cabe a cada um de nós reconhecermos humildemente esse dom e deixar que seja Deus quem confirme a nossa dignidade, que seja Deus a agir também através das nossas fraquezas.

Nossa dignidade não é uma tarefa estressante que se alcança através do cansaço, mas de uma elevação divina que é iniciativa de Deus, a quem nós devemos responder.

É claro que isso requer esforço! Mas, antes, também devemos reconhecer que o que, de fato, nos faz sentir o peso e o cansaço é a cegueira da nossa fé, e não o amor de Deus!