Notícias
publicado em: 03/11/2018
Frei Alfredo: “Eu sei que o meu Redentor está vivo”

Liturgia da Celebração dos Fieis Defuntos
Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano.

Todos os anos a comemoração dos fieis defuntos nos oferece a oportunidade da experiência de um momento de silêncio e reflexão.

Muitas famílias, durante o ano, vivem, entre outras coisas, a experiência da morte, seja de familiares, entes queridos ou amigos. Alguns, certamente, viveram essa experiência de modo bem dramático.

O dia de finados, portanto, é um dia para ser vivido no espírito de solidariedade. Aquela solidariedade que permite que a dor de alguém nos “toque” e que nos faz querer ajudar a encontrar o conforto que vem de Deus.

Trata-se de um dia em que, de modo especial, devemos lembrar-nos daqueles que fizeram parte das nossas vidas e que agora não fazem mais, pelo menos não do mesmo lado da “estrada”.  Além disso, é uma oportunidade valiosa para pensar no modo como estamos vivendo nossas próprias vidas e se a estamos acolhendo como um dom precioso e valioso de Deus.

A comemoração dos fieis falecidos é também uma ocasião para voltar o pensamento para o infinito de Deus, para estar em comunhão com quem já está diante d’Ele, contemplando face a face o Seu rosto, mas também para perguntar sobre a razão de tanto sofrimento e para pedir forças para sermos capazes de lidar com ele.

Lembremo-nos de milhares de crianças, adolescentes ou jovens que, tão cedo, perderam os seus pais e vice-versa, nos pais que de um modo triste, e nada natural, tiveram que sepultar os seus filhos.

Pensemos também, por um instante, naqueles que acompanharam os seus entes queridos durante um longo período de enfermidade sem a possibilidade de cura; como também naqueles que, por desespero, tentaram uma saída mais rápida, porém, através de um caminho mais “torto”, encontraram a morte.

A solidariedade de que falamos acima nos faz também lembrar do povo da Síria, ou de povos em países atingidos pela guerra, mortos pelos próprios conterrâneos e com tanta violência.

Mas não só, com a mesma solidariedade vamos nos lembrar das crianças e idosos das regiões mais pobres do nosso país, ou até mesmo das grandes cidades, que todos os dias correm o risco de encontrar a morte a cada instante, seja pela violência que sofrem, seja pela falta de oportunidade, de cuidados médicos, de alimentação adequada, de educação etc.

Refletindo sobre esses eventos, procuremos estar mais próximos das pessoas que sofreram essas perdas, com um único pensamento voltado a todos aqueles que, de tantos modos diferentes, já cruzaram o limiar da morte.

Que o dia de finados proporcione a cada um de nós não esquecer que, somente com a esperança da ressurreição, é possível cumprir a história de cada ser humano, sem cair no desespero. As leituras que nos são propostas pela liturgia de hoje lançam esta mensagem de esperança.

Na primeira leitura escolhida entre outras para esta celebração (Jó 19,1. 23-27ª), a esperança de Jó é uma esperança verdadeira e crível por causa do grande sofrimento que a precede. Além disso, suscita uma maravilha nos seus leitores, quando no final de um percurso muito difícil, Jó nos ajuda a compreender que tal sofrimento permitiu-lhe conhecer mais profundamente o mistério de Deus e dos homens.

A experiência de Jó nos ajuda também compreender que nem todas as perguntas tem uma resposta simples e que ao final de tudo, o mais importante é crescer na fé para percorrer o caminho que nos leva a conhecer a Deus: "Eu sei que meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó ... e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus; meus olhos O contemplarão, e não os olhos de outros”! A história de Jó é, de fato, extraordinária, e nos inspira e transmite coragem, mesmo diante dos maiores sofrimentos.

Na segunda leitura escolhida para hoje (Rm 5,5-11) a esperança do Apóstolo Paulo nasce da Páscoa do Senhor. A passagem da Carta aos Romanos é apenas mais uma das muitas passagens em que Paulo não se cansa de partilhar conosco a sua relação pessoal com Cristo, de onde vem a sua confiança sem limites: “Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte do Seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida”!

Já no Evangelho, também escolhido entre outros (Jo 6, 37-40), a esperança nasce da afirmação forte e clara do amor que Deus Pai tem por todos os homens e que nos foi manifestado em Cristo, Seu Filho: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia”. Este parece ser o motivo convincente da promessa da ressurreição e da vida eterna.

Portanto, foi o amor que levou o Pai ao encontro dos homens e a “doar” o Filho que realiza o projeto da salvação, levando os homens, com Ele, à vida eterna.

É ainda Paulo que exprime com força na carta aos Romanos, que a segurança do amor de Deus deve fazer com que não tenhamos medo de nada, como também deve ser a nossa força e sustento nos momentos de provação: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou”. (Rm 8,36-37).