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publicado em: 10/11/2018
Frei Alfredo: "A Oferta da Viúva"

Reflexão a partir do texto do Evangelho do Trigésimo Segundo Domingo do Tempo Comum
Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA

Assessor da Pascom Diocesana

Jesus senta-se em frente ao tesouro do templo e observa. Esta imagem, quase solene, está no centro do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos (12,38-44), deste Trigésimo Segundo Domingo do Tempo Comum.

Marcos nos apresenta o último ato público da vida de Jesus, em Jerusalém, antes da sua Paixão. Talvez, esperaríamos, como último ato, algum milagre ou sinal grandioso. Mas não! Jesus se coloca diante do tesouro do templo, local onde as ofertas eram depositadas, e observa as atitudes das pessoas.

O que é mais importante é esse olhar de Jesus, que nos leva à perguntar: o que Jesus observa? O que ele olha? O que quer ensinar aos seus discípulos com esse olhar? O que pretende que os discípulos vejam?

A cena do Evangelho é precedida por um dia exaustivo e decepcionante, em que Jesus havia se encontrado primeiro com os chefes dos sacerdotes, depois com os fariseus e, finalmente, com os escribas e saduceus. As conversas não surtiram muito efeito porque todas essas pessoas permaneceram fechadas em suas posições.

No quadro da cena evangélica, vemos a multidão que continua a olhar e admirar esse tipo de pessoas que amam os primeiros lugares, honrarias e destaques. As pessoas as apreciam e até, inclusive, as invejam. Jesus observa que o que importa, nesse caso, é serem admiradas e elogiadas!

Jesus, então, se sentou, talvez, decepcionado, procurando ali, diante do tesouro do templo, colher algum sinal de esperança. O Evangelho nos diz que havia muitas pessoas ricas, muitos devotos piedosos, que jogavam muitas moedas, mas que também, de repente, aconteceu algo que chamou a atenção de Jesus.

Não é que veio uma viúva pobre e depositou duas moedinhas insignificantes?

Embora tenha sido uma oferta insignificante, o fato é que, a oferta dessa viúva pobre se tornou, para Jesus, a maior oferta de todas as ofertas, porque ela deu tudo o que possuía. Ela doou a sua própria vida!

Gosto de pensar que Jesus contemplou e admirou essa mulher porque, finalmente, viu alguém expressar um ato de amor pleno, cheio de fé, oferecendo toda a sua vida. Trata-se do mesmo ato que Ele realizará na cruz para a salvação de todos. A oferta de Jesus será doar toda a sua vida por nós!

A fé dessa viúva abre cenários de esperança e de ressurreição, justamente, porque o seu gesto contém toda a confiança na providência de Deus, que faz com que ela seja capaz de tal ato de amor total e gratuito!

É essa relação de confiança e de amor com Deus que permite que sua vida tenha sido transformada em dom, que lhe permitiu oferecer tudo o que tinha a serviço do amor, porque ela entendeu e soube que Deus a ama! Só pode ser isso!

O olhar de Jesus sobre essa mulher nos diz também que o coração de Deus acolhe cada gesto, ainda que pequeno e, aparentemente, insignificante, que fazemos com amor. Cada ato de amor nosso entra na memória de Deus e chega ao seu coração, fazendo-nos passar pela morte vencendo-a, e tornando a nossa vida, eterna!

Hoje, portanto, essa viúva nos ajuda a celebrar a festa de quem está oferecendo toda a sua vida por amor. Hoje é a festa de quem, mesmo tendo perdido a pessoa amada, continua a dar toda a sua vida pelos filhos. É a festa de quem está oferecendo com fé, toda a sua vida numa cama de hospital, como também de quem, dia e noite, está ali, ao seu lado. É a festa de quem, esmagado pela pobreza, oferece toda a sua vida nos trabalhos pesados, massacrantes e mal remunerados, para sustentar a sua família; é a festa de quem oferece toda a sua vida para defender a dignidade da vida humana e da liberdade das pessoas.

O que Jesus quer que os seus discípulos vejam e aprendam? Ele convoca os seus discípulos a olharem para além das aparências dos fatos e das pessoas que, muitas vezes, nos fazem errar feio em nossas avaliações e julgamentos: a viúva pobre coloca em jogo toda a sua vida doando o que para ela era vital, através da sua oferta, aparentemente, insignificante. Jesus mostra aos discípulos e a todos nós que não existe nenhum gesto de amor que não envolva a vida toda! Que o amor ou é tudo ou não é amor!

Observando o gesto da viúva lembro-me das palavras do próprio Jesus: “... as prostitutas vos precederão no Reino dos Céus!”. Penso, então, que as “prostitutas” indicam todos aqueles homens ou mulheres que até podem ter errado, e que são as pessoas que, talvez, nós julgamos moralmente, que são desprezadas por nós, mas são pessoas que, pelo menos, tentaram e ofereceram toda a sua vida por uma única coisa que vale à pena viver: o amor! É por isso que nos precederão no Reino dos Céus!

Talvez, Jesus convide os discípulos a observarem o que dali há pouco não conseguirão ver no gesto que ele mesmo realizará, pois todos fugirão, diante do Cristo que não oferecerá algo supérfluo, mas a sua própria vida na cruz!

Neste domingo, então, Jesus nos faz voltar ao centro do nosso coração onde habita o amor que nos é dado e nos torna capazes de fazer ofertas totais. "O amor de Deus foi derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado".

Jesus hoje quer abrir os nossos corações e nossas comunidades para que despertem dos anestésicos que nos tornaram insensíveis ao seu Amor em nós e por nós. O anestésico do “senso comum”, que nos faz julgar moral e equivocadamente os gestos de amor, e que nos convida a arriscar e nos lançar na direção do que é vital e não no que é supérfluo.

O convite abrange o despertar do anestésico de tudo o que não nos permite mais ter o coração aberto para a ação providencial de Deus e nos faz sempre ver tudo na lógica da segurança financeira e do lucro.

Peçamos, portanto, ao Senhor, a graça de conseguirmos sintonizar o nosso olhar com o seu olhar, o nosso coração com o amor do seu coração.  Só então seremos capazes de gestos como o da viúva.