Notícias
publicado em: 10/02/2019
Dom Sevilha: "Carregar a Cruz"

A Cruz é o símbolo do cristianismo em todos os lugares do mundo. A meia lua é o símbolo do islamismo e a estrela de Davi é o símbolo do judaísmo. Não há cristão sem cruz. Jesus carregou a Cruz e nela morreu por amor e salvação da humanidade e, por isso, aqueles que aceitam seguir e imitar Jesus também têm que abraçar a Cruz. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

A vida não é fácil para ninguém. Desde a primeira página da Bíblia até à ultima, o livro do Apocalipse, temos a descrição perfeita da complexa luta da vida. Na Bíblia encontramos toda a santidade divina entranhada na imperfeita realidade humana. De fato, toda a realidade é composta dessa maravilhosa e desconcertante mistura do divino com o humano, e vice-versa.

Nesse complexo relacionamento que, não por acaso, a Bíblia o compara com o conhecido relacionamento entre marido e mulher no casamento, há momentos difíceis e de “crise conjugal”. A Bíblia apresenta Deus como o esposo fiel e a humanidade como uma esposa, às vezes, não muito ajuizada. Os profetas que narram esse relacionamento conflituoso descrevem, literalmente, o famoso “vamos discutir a relação” entre Deus e o seu povo, nem sempre fiel (Cfr. Oseias).

No Império Romano a cruz era um instrumento de tortura e morte. Cristo tornou a Cruz em instrumento de vida e de manifestação concreta de seu amor por nós. Afinal, “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos” (João 15,13). Até hoje temos os dois tipos de cruzes ou de sofrimentos. Temos a cruz sem Deus e temos o sofrimento unido à Cruz de Cristo. Uma coisa é o sofrimento derivado do pecado, do mal, da mentira. Outra coisa é o sofrimento pelo bem, pela verdade e por aquilo que é correto (justiça).

Todo ser humano sofre e, nesse mundo, não há como fugir dele. O maior problema não está na intensidade ou frequência do sofrimento, mas, o segredo está no modo como enxergamos e encaramos a dor. Sem a fé, fatalmente, a alma só tem duas possibilidades diante das tempestades da vida: resignação depressiva ou ficar revoltada. Quem tem fé sabe que não está jamais sozinho, sabe que Deus está no meio de nós e que acompanha e ampara a cada um dos seus filhos e filhas. Por isso, mesmo sem conseguir entender racionalmente o sofrimento, ele sabe que tudo o que acontece na vida tem um porquê de Deus. Todos nós não sabemos a razão pela qual certas coisas aconteceram na nossa vida, mas, Deus sabe!

Assim sendo, o cristão continua sua luta, mesmo sofrendo, mesmo não entendendo, pois tem a certeza da fé de que Deus está conduzindo amorosamente a história humana em geral, e a sua vida em particular. Ninguém, por pior que seja, está excluído do amor eterno do Pai. Santa Teresa de Ávila entendeu isso e escreveu: ‘Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta’!

A pessoa egoísta e sem Deus, mesmo se ela, se isso for possível, não tiver muitos problemas, ela não estará em paz e não se sentirá feliz; enquanto muitas pessoas com fé profunda, mesmo cheias de problemas e grandes sofrimentos, milagrosamente, conseguem estar felizes e com a alma em paz.

Resumindo: a qualidade de vida da sua alma não depende do tamanho do seu sofrimento, mas do tamanho do Amor de Deus no seu coração, que é fruto da sua fé no infinito e eterno amor misericordioso do Pai. Seja feliz!

Dom Sevilha, OCD.