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publicado em: 09/03/2019
Dom Rubens Sevilha: "Quaresma"

    Iniciamos a caminhada de quarenta dias rumo à Páscoa recebendo as cinzas recordando-nos que somos pó e ao pó nos tornaremos. Todavia, esse pó nas mãos de Deus oleiro, torna-se um vaso novo. Vaso de argila, é verdade, mas que carrega dentro de si o tesouro da vida divina. Um dos maravilhosos milagres do Pai Criador é tornar o pó a sua imagem e semelhança.

    A caminhada quaresmal é retrato do nosso caminho existencial rumo à Páscoa definitiva que é o céu. Na passagem do Evangelho lida na abertura da quaresma (Quarta-feira de Cinzas), Jesus nos ensina três coisas fundamentais a serem feitas durante  nossa peregrinação rumo à eternidade: oração, esmola e jejum.

    Toda a nossa vida gira em torno dessas três realidades: Deus (oração), as pessoas que nos rodeiam (esmola) e o nosso eu com seus múltiplos desejos e necessidades (jejum). Jesus sintetizou tudo isso com as palavras: Amar a Deus sobre todas as coisas (oração) e ao próximo (esmola) como a si mesmo (jejum). A oração refere-se ao relacionamento com Deus, ou seja, ouvi-lo e aprender a amá-lo até chegar ao ponto de dizer que “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). A oração não consiste somente em recitar algumas fórmulas ou dizer palavras bonitas. Orar é abrir o coração diante de Deus, é colocar-se inteiro diante do Pai e falar-lhe, mais com a alma do que com a boca. Nessa abertura do coração, diante de Deus, podemos e devemos pedir, agradecer, louvar, adorar, clamar, reclamar... O mais importante de tudo é nos colocarmos verdadeiramente diante de Deus. Em muitas ocasiões devemos estar calados diante dele e, às vezes, o silêncio é a nossa única oração possível. A essência da oração consiste mais em “estar com” Deus e amá-lo do que em muito falar.

    Em relação ao próximo está a esmola que é a partilha de tudo o que somos e temos. “Não há maior amor do que dar a vida”(Jo 15,13). Infelizmente a palavra esmola empobreceu muito seu significado e, na linguagem popular, muitos a entendem como dar algo insignificante ou o que lhes sobra e não lhes custa nada. Creio que, em alguns casos, uma esmola parece ser mais uma forma de humilhar o pobre do que uma verdadeira ajuda. Esmola deveria ser um auxílio que, de fato, deseja retirar o necessitado daquela situação difícil. A verdadeira esmola deve nos custar alguma coisa. Esmola barata demais não é esmola, é sobra.

O jejum refere-se ao próprio eu, freando o nosso orgulho que se alimenta de variados desejos e necessidades. “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo” (Mt 16,24). Renunciar a si mesmo é o principal jejum e o mais difícil de se fazer. Alguns cristãos acima do peso, querem enganar a si mesmos e, talvez, também enganar a Deus, julgando ser jejum a promessa de não comer doce durante a quaresma. Querem matar dois coelhos com a mesma cajadada: emagrecer o corpo e engordar a alma.

    A oração, a esmola e o jejum formam um tripé para a vida cristã. Se faltar um deles, a vida cristã tomba, não permanece de pé. Se faltar a esmola da partilha e doação de si, a vida cristã torna-se intimismo egoísta. Se faltar a oração, torna-se ativismo neurótico e se faltar o jejum da renúncia de si, a existência é devorada pelo orgulho louco e seus filhotes: inveja, raiva, violência, avareza, arrogância, etc.

Jesus orou, jejuou e deu sua vida como pão repartido. Também nós, os seguidores de Cristo, nos esforçamos para orar, partilhar e renunciar até chegarmos à grande e definitiva Páscoa no Céu.

                      Dom Rubens Sevilha, OCD.

 

Artigo publicado na Coluna Conversando com o Bispo do Jornal da Cidade de 10 de março de 2019.