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publicado em: 11/05/2019
Frei Alfredo - "Ninguém as arrancará da minha mão"

(Reflexão da Palavra de Deus no Quarto Domingo da Páscoa)
Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA
MIssionário Inaciano

No Quarto Domingo do Tempo Pascal, pontualmente, a liturgia nos traz novamente a figura do Bom Pastor. Na realidade, ele nunca nos abandona e está sempre pronto a nos sustentar, sempre próximo, conduzindo-nos novamente às pastagens da vida eterna e dando-nos a certeza inabalável de sermos amados.

Sim, porque desde o primeiro momento em que viemos à luz nasceu também a necessidade de amar e ser amados, no mistério profundo dos nossos corações.

Trata-se do instinto primordial que põe o ser humano em relação com o seu semelhante, dando à vida uma junção de sentimentos, de paixões, desejos e expectativas. É assim que o esposo, o pai, a mãe, o filho ou o amigo, todas as pessoas que enchem a vida de significado são, ao mesmo tempo, sinal e limite de uma plenitude que todos aspiramos, mas que somente Deus pode nos dar.

Neste Tempo Pascal, depois de termos sido colocados diante do Ressuscitado, que se manifesta aos seus discípulos, enchendo novamente as redes de suas vidas, hoje ele se manifesta a cada um de nós na imagem do Bom Pastor que não é, para a maioria de nós, uma imagem contemporânea, mas, que faz parte do cenário da nossa alma, de modo que nada, nem mesmo o fato de não ser para nós uma imagem contemporânea, poderá apagar.

O pastor e as suas ovelhas nos levam a um mundo longínquo que, justamente porque distante de nós, facilmente tendemos a embelezar e idealizar, romanticamente. Na realidade, a vida do pastor palestino nas areias do deserto da Judeia não tinha nada de poético. Pelo contrário, era rude, extenuante e, às vezes, também perigosa.

Para nós, no entanto, o importante é recolher os sinais de paz e de ternura nas palavras de Jesus que, quanto mais sugerem amor e cuidado, mais nos fazem perceber o quão dolorosa é a experiência do nosso mundo, entregue às contradições do progresso por um lado, mas dos retrocessos por outro, dos avanços para o bem estar e a cidadania, mas também da subtração dos direitos dos trabalhadores. Vivemos num mundo agitado pelas crises e pela dispersão.

Quando se está acostumado a uma vida frenética, sujeita às tensões de todo o tipo, é difícil não desejar uma vida diferente, governada por outros ritmos, onde se reencontre a paz e a ternura, que parecem tão distantes. Refiro-me àquela paz de quem sabe colocar-se em silêncio para escutar.

Nos poucos versículos do Evangelho extraído para este Quarto Domingo da Páscoa se fala de vozes e de escuta e, portanto, celebra-se, indiretamente, a importância do silêncio. Sem silêncio não é possível escutar empática e fecunda!

Numa sociedade como a nossa, em que somos assediados a todo o momento pelas palavras e pelas vozes, pelas “conversas fiadas”, barulhos, avisos de sms, de tweeter e de whatsapp, inclusive na igreja nos momentos em que se deveria ficar em silêncio e escutar, é urgente redescobrir o valor do silêncio. Isso se faz ainda mais necessário nesse tempo em que a maior parte dos nossos políticos parece estar disposta a escutar muito mais a si mesmos do que aos outros, aos apelos da vida e da cidadania do povo.

É preciso lembrar o que significa deixar-se guiar por Aquele que não apenas usa as palavras, mas que é a Palavra e que dá a sua vida por nós. Trata-se de experimentar fazer tudo o mais calar e deixar Deus falar. E, assim, descobriremos que Deus nos dirige a sua voz e que fala diretamente a nós, porque ama a cada um de nós de modo pessoal. 

Esta foi a experiência de Madalena, de Tomé, dos dois discípulos de Emaús, de Pedro e de João. Ele fala a cada um de nós! Ele nos conhece.

O “conhecimento”, na linguagem bíblica, não deriva de processos meramente intelectuais, mas de uma “experiência”, de uma presença que se difunde, necessariamente, no amor.

Jesus não nos conhece formalmente, mas faz experiência de nós, conosco. Ele dá a “vida eterna” a nós, portanto, não somente a vida física, nem somente a vida além da morte, mas a participação na mesma vida do seu ser Filho de Deus.

Aqui está a grande mensagem da Páscoa, confirmada pela segunda leitura do livro do Apocalipse (7,9.14b-17): o Pastor se fez Cordeiro por amor à nós, uniu-se de tal modo à nossa humanidade, que nunca mais a abandonou. Suas mãos foram “pregadas” na cruz, mas estão ligadas a nós, muito mais do que estavam pregadas naquela cruz. Portanto, ninguém jamais poderá arrancar-nos das suas mãos. “Ninguém as arrancará da minha mão”.

Ninguém: nem os anjos, nem os homens, nem a vida, nem a morte, nem o presente, nem o futuro; nada poderá jamais nos separar do amor de Cristo, como repete Paulo aos Romanos (cf 8,38). A força e a consolação contidas nessa palavra absoluta: “ninguém”, é redobrada pela expressão “as arrancará” das minhas mãos!

Há um verbo que não está conjugado no presente, mas no futuro, indicando uma história inteira, longa como o tempo de Deus. O que nos faz concluir, para a nossa alegria que, para Deus o ser humano é uma paixão, que chega a atravessar a eternidade.

“Ninguém os arrancará da minha mão”! “Ninguém os arrancará da mão do meu Pai”. Trata-se das mãos que se desprenderam dos céus e lançaram os fundamentos da terra; são as mãos do oleiro na argila do Éden; mãos do Criador sobre Adão adormecido para dar vida à Eva. São as mãos pregadas na cruz para o abraço abrangente e infinito. Ninguém nos tirará dessas mãos.

São palavras que nos encorajam, sobretudo, nos momentos em que surgem as tribulações. Refletem a experiência de tantos testemunhos de fé dos quais fala o livro do Apocalipse: “uma multidão imensa proveniente de todos os povos”.

Essas testemunhas estão “em pé”, portanto, vivos como o Cordeiro; estão diante do Cordeiro, isto é, em relação com Cristo; envoltos em vestes brancas, por isso, partícipes da ressurreição; trazem palmas nas mãos, sinal da vitória sobre o mal e da plenitude da vida.

É importante destacar a estranha e contraditória mensagem das vestes brancas da multidão, lavadas e alvejadas no sangue. São vestes brancas, cândidas e puras, mesmo tendo passado pelo vermelho do sangue do Cordeiro, que é Cristo. Apesar do símbolo contraditório, típico do Apocalipse, trata-se de um sinal que indica que se nos abandonamos nas mãos de Deus, a grande tribulação da dor e do sofrimento se transforma em “porta” para a alegria da visão de Deus.

Como crianças, então, agarremos fortemente nessa mão que nunca nos deixará cair, como escreveu Santo Agostinho, comentando o Salmo 39, nos assegurando e, ao mesmo tempo, nos alertando: "O senhor cuida de ti, não te preocupes. Apoia-te em quem te fez e não caias da mão do teu Criador; se caíres da mão do teu criador, te quebrarás" (Sto. Agostinho, Exposição sobre os Salmos, 39,27). “Sim, nas tuas mãos entrego a minha vida”.

Na figura do Bom Pastor Jesus nos garante que o próprio Deus virá ao nosso encontro secando as lágrimas dos nossos olhos. Que desça neste domingo, sobre cada um de nós esta antiga benção celta: “Que o caminho sempre se abra diante de ti; que o vento sopre levemente nas tuas costas; que o orvalho banhe a relva sobre a qual repousam os teus passos. Que o sorriso brilhe no teu rosto e o céu te cubra de bênçãos. Que uma mão amiga enxugue as tuas lágrimas no momento da dor; e que o Senhor te segure e te guarde na palma da sua mão, até o nosso próximo encontro”. Amém.

Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA.