Notícias
publicado em: 22/09/2019
Frei Alfredo: “Não podeis servir a dois senhores”

(Reflexão da Palavra de Deus no Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum)
Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano.

O que ouviremos de Jesus, neste Vigésimo Quinto Domingo do Tempo comum é o elogio à estratégia de um administrador corrupto. O próprio Jesus!

O "escândalo" no Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas (16,1-13)  deste domingo, não pode ser visto ou compreendido como uma descontinuidade ou uma “quebra” nos valores ensinados por Jesus sobre o bem e o mal, sobre a vida e a morte. É, justamente, o contrário!

O elogio a um administrador desonesto é útil, na boca de Jesus, para ressaltar o que é essencial dizer e fazer para a salvação contra todo o desespero, para anunciar sempre o amor total e absurdo de Deus para conosco, contra toda a “feiura”, contra o ódio que a lógica deste mundo faz surgir constantemente. Trata-se do escândalo que só o amor absoluto de Deus pode provocar!

A salvação e o amor de Deus são e sempre serão o centro de toda a mensagem evangélica. É o núcleo mais importante ao qual nós devemos sempre ter como foco e referência com relação a nós mesmos e a todas as pessoas e situações, como “arma” contra a morte e o pecado. Nem sempre é assim, infelizmente!

O Evangelho faz referência à urgência da salvação e do amor que, geralmente, são negligenciados por nós, não obstante a nossa fé ou filiação cristã.

A pergunta essencial é até que ponto, diante das emergências e necessidades de resgatar as pessoas, diante das mazelas da vida, somos capazes de agir com prontidão, esperteza, lançando mão de todos os recursos possíveis?

Quanto estamos dispostos a “pagar” para encontrar uma solução? Estamos dispostos a usar todos os recursos e meios para resolver qualquer situação que não manifeste a vida do Reino, da mesma forma que estamos dispostos a fazer “das tripas coração”, quando o interesse e a urgência são nossas? Estamos dispostos a fazer o que for possível quando o assunto é a vida eterna, a ressurreição e o amor de Deus?

O que poderia justificar tamanha negligência e má vontade de nossa parte? O que justifica a falta de esforço e atenção de nossa parte a não ser o desprezo aos ensinamentos de Jesus, à salvação e às promessas de Deus?

Lucas é categórico ao afirmar que o que nos impede de escolher sempre a salvação e de decidir-nos, definitivamente, pelo amor de Deus, é o maior adversário de Deus, sempre e de novo, que no decorrer dos séculos da história da humanidade é capaz de endurecer e arruinar o coração humano.

Trata-se das conveniências e interesses próprios, especialidade dos fariseus, representados aqui pelo dinheiro, sinônimo do “Mamon”, que significa tudo o que representa as riquezas materiais, como a cobiça, as atitudes mesquinhas.

“Mamon” nem sempre é representado por uma divindade, mas se torna um ídolo capaz de realizar uma obra diabólica na mente e nos corações humanos, separando-o de Deus e lançando-o nas trevas, das quais se torna filho. “Nunca mais esquecerei o que eles fizeram”, diz o Senhor, na boca do profeta Amós, na primeira leitura (Am 8,4-7).

Quem não administra as coisas de Deus para os outros, mas para si mesmo, torna-se um administrador desonesto; o administrador desonesto é forjado no horizonte da morte eterna, pois, quando perde o horizonte da vida eterna, o que resta é “sobreviver” numa terra sem esperança.

Na “balança” de Jesus o elogio à esperteza para assegurar a sobrevivência nesta terra e garantir o mal menor é apenas uma pequena consolação, se comparada a uma vida que encontra sentido e que se cumpre na eternidade, no Reino de Deus e na ressurreição.

O que, de fato, é essencial fazer? Como agir? É urgente levar a sério e recolocar no centro o que podemos chamar de “imperativo do agora”, da necessidade, de não perder ninguém, sempre presente na admoestação escatológica que é, talvez, a nota mais aguda e insistente de toda a pregação terrena de Jesus: decidir pelo Reino, que está à porta! O Esposo está chegando!

Os “imprudentes”, isto é, aqueles que se comportam como “loucos”, não por algum mal mental, mas porque perdem a consciência do sentido da vida e do seguimento de Jesus Cristo, conhecendo a vontade do seu Senhor, permanecerão do lado de fora, batendo desesperadamente, como as virgens que estavam dormindo no momento mais crucial e dirão: “Senhor abre-nos a porta!” Mas ele responderá: “Não sei de onde sois”! Não vos conheço! (LC. 13, 25). Então, será tarde demais!

O Evangelho de hoje não trata apenas de uma piedosa exortação sobre como usar os bens e as riquezas, ou o que nos foi concedido ter nesta vida. Antes de tudo, trata-se de uma exortação a dar, verdadeiramente, um passo adiante no caminho do amor, que nos leva à vida eterna, à casa do Pai, na qual podem entrar somente os que souberam ser irmãos, bem como também os que, aqui e agora, nesta vida, fizeram de tudo para ser o mais fraternos possível, no amor e com todos os meios que tiveram à disposição para fazerem o bem.

É preciso decidir-se com a mesma determinação, como decidimos agir, às vezes até demais, com relação às coisas deste mundo: entrar no Reino, acolher a salvação da qual Jesus abriu as portas para nós, para fazer, ou pelo menos, para perguntar como podemos administrar melhor o que nos foi dado, a fim de entrar e ajudar os outros a entrarem no Reino?

É urgente tomar consciência de que no Reino só é possível entrar pela porta estreita, que acolhe a todos os que, abandonando os seus fardos pesados, passam por ela com um pouco mais de facilidade, porque se deixaram ungir com o óleo do amor.

No fundo, o Evangelho de hoje nos coloca diante de uma questão muito simples: o que cada um de nós está disposto a fazer e a pagar para curar feridas, gerar vida e ajudar a sobreviver? Estamos dispostos a usar a mesma esperteza que usamos para ganhar os favores e vantagens deste mundo?

Não se trata de perguntas muito complicadas, pois se encontramos dificuldade para respondê-las, talvez seja porque os nossos corações ainda não estejam em plena sintonia com os ensinamentos e com o coração de Jesus!

Talvez, pelo fato de ainda estarem muito apegadas às coisas, às normas que mais ferem do que curam, às coisas mal usadas ou usadas de forma equivocada num coração que, ao invés de dispensar amor e vida, torna-se duro e pesado, estéril e dificilmente curável, a não ser pela misericórdia de Deus, obviamente! Aqui está o problema!

Contudo, também é verdade que nós estamos dispostos a feitos incríveis e extraordinários somente quando somos animados pelas motivações corretas, boas e justas. Então, a pergunta é feita apenas àqueles que, realmente, se perguntam sobre a urgência da vida eterna.

É uma pergunta para quem leva a sério o Amor de Deus que, no sacrifício de Cristo, nos salva e faz de nós seus filhos. A pergunta é dirigida a quem sabe que todas as astúcias e espertezas deste mundo, assim como as riquezas e poderes perdem tempo e perdem também a oportunidade de entrar no verdadeiro tempo! A eternidade! Que pena!