Reportagens Diocesanas
publicado em: 20/07/2019
O AMOR PRÓPRIO - Por Dom Rubens Sevilha

Quem não se percebe amado por Deus, procura preencher esse vazio amoroso com muitos outros amores que, ao fim e ao cabo, só aumentam o vazio. Sem o amor de Deus, muitos tornam-se mendigos afetivos suplicando amor ao seu redor.

Sem a fundamental experiência de saber-se amado por Deus – evito aqui a surrada expressão “sentir-se amado”, pois remete a sentimentalismos superficiais e passageiros, a alma fecha-se em seu egoísmo tornando-se infeliz. Aquele que não foi amado, também não consegue amar. Ninguém dá o que não tem. Geralmente ela não tem culpa alguma por não ter aprendido a amar, pelo contrário, ela é vítima do desamor.

O mendigo afetivo procura preencher o seu vazio interior com inúmeros apegos ilusórios que o mundo cruel e hipócrita fartamente oferece. O deus dinheiro oferece a salvação aos seus fiéis impondo a eles a submissão aos seus mandamentos consumistas. Quanto mais alguém consumir, mais feliz será. Muitos literalmente sacrificam a própria vida ao deus dinheiro para conquistar a pretensa felicidade que os bens materiais prometem.

"Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro" (Mateus 6,24). O Senhor Jesus nos liberta das garras do deus dinheiro nos oferecendo o seu amor e, consequentemente, Ele nos dá todas as coisas necessárias para termos uma vida digna, simples e feliz.

Até os ateus inteligentes estão percebendo, a duras penas, que a saída para a salvação ecológica da nossa Casa Comum é adotar um estilo de vida mais simples e sóbrio. Isto requer mudança de hábitos (conversão, na linguagem religiosa) e certa disciplina e austeridade (ascese, na linguagem religiosa).

Outros querem preencher o seu vazio afetivo dando-se o direito de exigir o amor das pessoas que estão ao seu redor. Cobram dos pais um amor perfeito e total que eles não podem dar, pois eles são humanos e não são Deus. Na fase adulta cobram do cônjuge um amor profundo e pleno que ele não pode dar, porque ele não é Deus. Só o eterno e infinito amor de Deus é capaz de preencher o nosso infinito desejo de amor e felicidade.

   O relacionamento tóxico, feito de mútuas cobranças egoístas e imaginárias, gera somente frustração e agressividade. O amor de Deus liberta o nosso coração do egoísmo e nos abre para amar toda pessoa que cruzar o nosso caminho. “Onde não tem amor, coloque amor e colherás amor”, escreveu São João da Cruz. Uma migalha de pão é pão, uma gota de vinho é vinho, e uma migalha de amor é amor. Comecemos dando as migalhas do nosso amor e contentemo-nos agradecidos com as migalhas de amor que, muitas vezes, é o máximo que as pessoas conseguem nos oferecer. Muitos de nós, embora distribuamos somente migalhas, somos tentados a recusar as migalhas de amor que recebemos e ainda exigimos receber um pretenso amor total.

O Reino de Deus é amor, justiça e paz. O amor de Deus derramando em nosso coração e transbordado no coração do mundo é o remédio que cura a nossa humanidade ferida trazendo-lhe a felicidade e a paz.

Para alguns, a última tentativa desesperada de preencher o vazio da alma é amar a si mesmo sobre todas as coisas. Uma falsa autoajuda ou a errônea religiosidade intimista pode alimentar o egoísmo, a vaidade, o narcisismo.

O amor sempre vem de fora de nós mesmos, aninha-se na nossa alma e, por simbiose, gera e transborda mais amor. “O amor de Deus foi derramando em nossos corações” (Rm 5,5).

Bauru, 21 de julho de 2019                   

Dom Rubens Sevilha, OCD.