Material Formativo
Objetivos do Ano da Fé

Neste ano de 2012 serão comemoradas duas datas importantes: os 20 anos de publicação do Catecismo da Igreja Católica e os 50 anos do início do Concílio Vaticano II. O papa Bento XVI proclamou o Ano da Fé que se iniciará em outubro e se encerrará na Festa de Cristo Rei em 2013.

A intenção do Papa Bento XVI ao proclamar o Ano da Fé é promover a hermenêutica da continuidade. Quando o Concílio Vaticano II (CVII) foi promulgado, criou-se dentro da Igreja uma tendência a fazer a leitura desse concílio rompendo com os anteriores, ou seja, era a tendência da hermenêutica da ruptura. O Papa Bento XVI logo que assumiu seu pontificado, no ano de 2005, afirmou que o espírito do CVII, na verdade, não propõe uma nova Igreja, pós-conciliar, mas sim, apresenta as mesmas ideias da Igreja de sempre, propondo ao homem moderno as mesmas verdades do Evangelho utilizando somente com uma nova roupagem. Não é possível haver, portanto, uma interpretação de ruptura, pois, se o CVII é o 21º Concílio ele só poder ser lido e interpretado à luz dos outros vinte concílios que o precederam.

Porém, a maneira de interpretar o Concílio como ruptura não é feita somente pelos progressistas. Os tradicionalistas também o lêem assim, pois percebem as mudanças que ele trouxe e não o aceitam.

O Papa Bento XVI propõe então a hermenêutica da continuidade, interpretar o CVII numa continuidade eclesial para que os verdadeiros frutos dele possam ser colhidos. Recentemente, no ano 2011, o Papa Bento XVI publicou a constituição apostólica Porta fidei, que lançou o Ano da Fé, ele relembrou a hermenêutica da continuidade, dizendo:

“Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma «consequência e exigência pós-conciliar», bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua reta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa» Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja»”

A leitura do CVII sob a luz da continuidade significa não deixar prevalecer a mentalidade sectária que é muito prejudicial para a Igreja. Cumpre esclarecer, segundo Bento XVI, que o CVII foi decidido e assinado pela maioria dos Bispos, portanto, lê-lo de forma diferente daquela original equivale a uma traição. É preciso, então, ler o CVII como ele foi escrito e não dar enfoque no chamado “espírito conciliar” que, na verdade, reflete apenas a vontade de um grupo de bispos pouco católicos e revolucionários.

Os documentos do Concílio Vaticano II constituem uma benção para a Igreja, pois foram escritos de acordo com a Tradição de sempre. A interpretação dos documentos, porém, é que gerou problemas por causa da ambigüidade de alguns deles. Isso também é, de certa forma, normal, pois os textos não são incriticáveis.

O Ano da Fé é uma ajuda para que os fieis possam entender o CVII nesse viés da continuidade. Na mesma carta Porta Fidei, o Papa Bento XVI, sobre o CIC diz que:

“Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no Catecismo da Igreja Católica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição Apostólica Fidei depositum – não sem razão assinada na passagem do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II – o Beato João Paulo II escrevia: «Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial» (João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117).

É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.

Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.

Assim, no Ano em questão, o Catecismo da Igreja Católica poderá ser um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para quantos têm a peito a formação dos cristãos, tão determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma Nota, através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas indicações para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da Fé ao serviço do crer e do evangelizar.”

Percebe-se, assim, o grande desejo do Papa Bento XVI em fazer com que os fieis católicos, de fato, conheçam e fortaleçam a sua fé. Entretanto, algumas pessoas questionam o motivo de se estudar o Catecismo e não a Bíblia. No Brasil existe uma linha de ação pastoral em que se tenta valorizar mais a Bíblia em detrimento do CIC no ensino da catequese. Essa linha pode não ser a mais adequada. O Catecismo dá ao fiel a interpretação da Igreja, assim, é preciso ser primeiramente católico para depois aprender sobre as Escrituras.

É preciso levar em conta que a Bíblia foi escrita por católicos e para católicos, pois não é possível ter uma correta interpretação dela se não se conhecer o que diz a Igreja. Na fé da Igreja de dois mil anos é que subsiste a correta interpretação católica das Sagradas Escrituras.

Um outro problema detectado quando se privilegia a Bíblia em detrimento do Catecismo da Igreja Católica no ensino catequético é o fato de existir no mercado algumas Bíblias que possuem uma leitura completamente marxista e subversiva dos fatos. É o caso da Bíblia “Edição Pastoral”, da Paulus Editora. A tradução dela não é de todo ruim, entretanto, as notas de rodapé, os títulos e subtítulos são inaceitáveis, pois propõe uma leitura totalmente imanente, mundanizante, sociológica da Bíblia. Neste caso, a Palavra de Deus está sendo utilizada como manual de revolução social, ideologicamente. Urgente se faz, então, ler a Bíblia como a Tradição e o Magistério da Igreja ensinam. E isso acontece ao se estudar o Catecismo.

O Catecismo da Igreja Católica começa justamente colocando o homem dentro do contexto de que é preciso mergulhar no conhecimento de Deus, quando diz que “a vida do homem é conhecer e amar a Deus” (Prólogo). Voltar a atenção para Deus, conhecendo-O, para poder amá-lO, pois não é possível amar, sem conhecer. É necessário estudar aquilo que Ele revelou. Daí se percebe a importância da catequese, da transmissão da fé ao longo da História da Igreja.

“A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especialmente um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de os iniciar na plenitude da vida cristã.” (CIC 04)

Portanto, antes de ensinar a fé às crianças, jovens e adultos é preciso que o catequista já esteja inserido na plenitude da vida cristã, o que abrange não só as Sagradas Escrituras, mas toda a doutrina, o conteúdo da fé.

O Catecismo é formado por quatro partes distintas, montadas sobre quatro textos basilares. O primeiro é sobre a profissão de fé, ou seja, o que é necessário crer para ser católico. É a chamada fides quae, a fé enquanto conteúdo. A segunda parte é sobre os sacramentos de fé. A Palavra se faz carne, portanto, apresenta sinais de Deus que se irrompe. Na terceira parte, ensina como saber viver a fé, amar a Deus de forma concreta amando também os irmãos e cumprindo os mandamentos. E, por fim, a oração na vida da fé, representada pela explicação do Pai Nosso.

Em resumo, Deus ama os homens primeiro, dando-lhes a sua graça. Depois se mostra a eles de forma concreta, eficaz, por meio dos sinais. A resposta do homem ao amor de Deus é a parte moral, pela obediência aos mandamentos. Por último, o voltar-se para Deus na oração, na adoração e na entrega. É um mecanismo: Deus vem por isso o homem vai.

Aprender e entender todas essas gradações da fé fará de cada um, um católico melhor, mais consciente da própria fé, podendo também atender ao pedido do Santo Padre, o Papa Bento XVI para o Ano da Fé.