Palavra do Bispo
"Primeirear"

Estimado leitor ou leitora, compreenda bem o que o Papa Francisco quis dizer com esse “primeirear” que usou em sua Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”: “A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo – tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1Jo 4,10), e, por isso, ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe ‘envolver-se’. Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor envolve-se e envolve os seus, pondo-se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: ‘Sereis felizes se o puserdes em prática’ (Jo 13,17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o ‘cheiro de ovelha’, e estas escutam a sua voz” (n: 24).

Pois bem, perceba também como no Evangelho da Missa de hoje - Jo 6,1-15 - Jesus ‘primeireou’, isto é, tomou a iniciativa, antecipando-se no amor misericordioso. Ao “levantar os olhos e ver uma grande multidão que vinha ao seu encontro Jesus disse a Filipe: ‘Onde vamos comprar tanto pão para dar-lhes de comer?’. Disse isso para pô-lo à prova, pois Ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer. Filipe respondeu: ‘Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um’”. Nós sabemos o que aconteceu depois. Jesus fez o milagre da multiplicação dos pães. Com cinco pães e dois peixes deu de comer a cinco mil homens e das sobras recolheram-se doze cestos. Sem dúvida foi um milagre extraordinário, tanto assim que as pessoas vendo o sinal que Jesus tinha realizado diziam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”. E Jesus, mais uma vez antecipando-se à massa popular que, pensando de forma politicamente correta, segundo diz a história, vendia tranquilamente a liberdade para o tirano de plantão que oferecesse pão e circo, retirou-se às escondidas porque seu Reino não era deste mundo. Jesus fugiu porque por trás da intenção de fazê-lo rei havia o pensamento que Jesus denunciou, abertamente, conforme se lê no versículo 26: “Em verdade, em verdade, vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes”.

“Primeirear” na evangelização, então, é ter presente que a conversão a Jesus passa pelas boas obras, pela caridade, pela justiça. Somente uma Igreja servidora da vida na caridade tem credibilidade para anunciar o Evangelho. Ninguém segue a Jesus senão por atração, pelo modo como os seus discípulos se amam! Uma Igreja ‘em saída’ deve estar a serviço não só dos seus membros, mas também de todas as pessoas da comunidade. Nossa Igreja sempre ensinou que há uma relação íntima entre a evangelização e a promoção humana. O serviço aos pobres e a comunhão com eles são prioridades evangélicas. Daí a famosa “opção preferencial pelos pobres”. Pois da contemplação do rosto de Cristo devemos descer à contemplação do rosto dos pobres. Se queremos ser uma Igreja missionária precisamos descer até eles com gestos de misericórdia.

Há necessidade também de “primeirear” não só para matar a fome do corpo, mas também para purificar dos pecados, dos desvios, das ideologias, das manipulações, das acomodações. Por isso, Jesus dizia que não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. E a palavra que saiu de sua boca, desde o primeiro instante do seu apostolado, foi  “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A Evangelização objetiva a conversão de vida, a uma mudança interior. Ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva das pessoas. Nessa linha de pensamento o Papa Paulo VI escreveu, na “Evangelii Nuntiandi”, que pregar o Evangelho é “atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (nº 19). É transformar o homem todo e todos os homens.

Supliquemos ao Senhor a graça de sermos uma Igreja ‘em saída’ que “primeireia”, que toma a iniciativa de ir ao encontro dos irmãos afastados e de chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos, não só com palavras, mas também com gestos concretos de bondade e solidariedade, contraindo assim o “cheiro de ovelha’, para anunciar-lhes o nome de Jesus e o seu santo Evangelho.