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Reflexão sobre Pentecostes - por Frei Alfredo Francisco de Souza

"Vinde, Espírito Santo, enchei o corações dos vossos fieis e acendei neles o fogo do vosso amor!"

(Liturgia da Solenidade de Pentecostes)

         Para entender e celebrar a grande solenidade de Pentecostes é preciso compreender que os apóstolos, após a Ascensão do Senhor aos Céus, experimentaram um grande vazio. Embora cientes da força da Páscoa e da beleza do encontro com o Ressuscitado, a Sua Ascensão os deixou, certamente, um pouco "perdidos".

         Estavam no Cenáculo, com Maria, a única que podia garantir o que significa ser, "coberta" com a "sombra do Espírito", isto é, cheia de Graça. Nós podemos reviver este evento ainda hoje.

         O Evento do Pentecostes significa uma abertura de "portas" para permitir que o "sopro" do Espírito entre, para depois podermos, com a força dos Seus dons, sair e testemunhar o Evangelho para o mundo inteiro. Celebrar o Pentecostes, necessariamente, significa estar dispostos a vencer os nossos "fechamentos", os nossos medos, entrando assim, na dinâmica do próprio Espírito Santo que é, acima de tudo, um "respirar", fazendo o amor "circular'.

         Vinde, Espírito Santo! Olhando para as três Pessoas da Santíssima Trindade, não é difícil perceber que de todas as três Pessoas, a que menos pensamos com mais atenção é o Espírito Santo.

         O Pai, lembramos sempre que rezamos a oração do Pai Nosso. Infelizmente, na maioria das vezes escolhemos rezá-la por ser mais breve e para cumprir um certo preceito de rezar e, nesse caso, o mais rápido possível.

         Quanto ao Filho, todas as orações O mencionam, mesmo quando terminam com a simples fórmula, "por Cristo, nosso Senhor".

         É óbvio que o Espírito Santo é também "lembrado" porque existe o sinal da Cruz e, portanto, não é totalmente negligenciado. Mas, que pena que o sinal da Cruz, geralmente, é feito às pressas e de qualquer jeito. Quantos de nós fazemos o sinal da Cruz tão rápido, que mal pronunciamos as palavras "Espírito Santo", tamanha falta de atenção com que fazemos?

         Diante disso, é preciso reconhecer que o Espírito Santo, para nós, é o grande "desconhecido" da Santíssima Trindade. E, no entanto, Ele é o grande protagonista de toda a criação.

         Não existe nada sem o Espírito Santo, como reza o Salmo 103 na liturgia de Pentecostes que celebramos neste domingo: "Se tirais o seu respiro, eles perecem e voltam para o pó de onde vieram; enviais o vosso Espírito e renascem e da terra toda a faze renovais"!

          Se Deus é Pai e origem de todas as coisas criadas, se o Filho é Aquele através do qual tudo foi criado, o Espírito Santo é Aquele que dá a vida e que concretiza, efetivamente, o que Deus, Uno e Trino, que cria. Santo Agostinho tem uma imagem interessante sobre isso: "o Pai decide criar; o Filho põe "mãos à obra" e o Espírito constitui as mãos e a energia com as quais o Filho realiza a criação".

          Se olharmos atentamente, logo nas primeiras linhas da Bíblia, na narrativa da criação se diz que "o Espírito pairava sobre as águas" e, imediatamente, em seguida, se diz que Deus começou a criar (Gn 1,2-3).

         Além disso, quando Deus cria o homem, sopra em suas narinas o "hálito" da vida e o homem se torna um ser vivente". Não se trata apenas da vida do corpo, mas da vida toda, completa, do homem. Logo, Deus sopra a Sua vida, a vida divina no homem, isto é, o Seu Espírito. Portanto, o Espírito Santo define a nossa identidade mais profunda.

         É esta convicção que levou são Paulo a dizer: "O Espírito Santo foi derramado em nossos corações: somos assim, considerados por Deus como os "depositários" ("templos") do Espírito, que reza em nós com gemidos inexprimíveis".

         Neste sentido, somos privilegiados diante dos olhos de Deus pois, tendo recebido o Espírito Santo, fazemos parte da família de Deus. Ou, mais concretamente, o Espírito está em nós e manifesta-se no que é mais bonito e melhor em nós,  no que faz com que nos voltemos para o alto e para o outro, no que faz de nós pessoas humanas no sentido mais profundo desta expressão.

         O Espírito é aquele que faz vibrar dentro de nós o desejo pelo melhor, pelo bem, pelo o amor autêntico e para a felicidade plena. Age em nós todas as vezes que escolhemos viver, não somente em função dos nossos próprios interesses ou segundo os nossos caprichos. Está presente em nossas ações e atitudes, sempre que tentamos perceber os ideais mais elevados dos nossos corações, quando fazemos o bem, quando o coração está cheio de alegria e nem mesmo sabemos de onde vem tamanha alegria.

         É a força vivificadora do Espírito Santo de Deus que atua em nós quando cuidamos com responsabilidade do nosso futuro e do futuro dos outros, quando descobrimos em nós a capacidade de sair do nosso egocentrismo e nos preocupamos com os outros também.

         O Espírito Santo é a luz e o calor que percebemos todas as vezes que nos sentimos compreendidos e amados. É também o mesmo Espírito que provoca em nós o arrependimento pelos males e pelas más ações que praticamos, conscientes de que aquele não era o melhor caminho, que aquilo não era o melhor a fazer.

         É o Espírito que inspira os pais a irem além do seu cansaço, dos seus próprios desejos e projetos pessoais, para dar prioridade aos seus filhos e às suas necessidades.

         O Espírito é a fidelidade que os esposos lutam para não trair, o amor que dão um ao outro no respeito mútuo. É aquele que nos impele a doar a vida pelo bem dos outros, mesmo quando este "dom" não é compreendido ou bem recebido.

         Numa palavra, o Espírito está em nós! Age em nós! É o que nós podemos ter ou fazer de melhor! É vida, é alegria, é paz, paciência e boa vontade, é confiança e humildade. É amor! Estas, e muitas outras, são atitudes encontradas no mundo e na humanidade. Graças ao Espírito Santo! "Vinde,  Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Amém!

Frei Alfredo Francisco de Souza – Missionário Inaciano e pároco da Paróquia Santa Luzia, de Bauru.

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