Reportagens Diocesanas
publicado em: 13/07/2019
SANTO ANTÔNIO ENGANADOR - POR DOM RUBENS SEVILHA

Guardo comigo uma cartinha, escrita à mão e com muitos erros de português, que encontrei dentro da cesta de pedidos de orações na Igreja onde fui pároco há muitos anos. Eis o texto.

“Querido Santo Antônio, é com muita tristeza que te escrevo. Eu Severina Maria te escrevo para te falar que estou desapontada com você. Que tua santidade como santo casamenteiro é uma farsa muito grande, és um verdadeiro enganador.

Eu sonhei com sua imagem há um ano atrás, que me falava que dentro de um ano e meio eu estaria casada. Já se passou um ano e nem namorado eu tenho. Por isso que eu digo que sois um santo enganador, não sois casamenteiro.

Já estou cansada de pedir a tua ajuda e proteção para que eu encontre um homem maravilhoso em todos os sentidos. E tu me negas tudo. A minha fé em ti acabou. Tu não podes me ajudar a ser feliz, por que eu sou uma pessoa muito infeliz por não ter um grande amor na minha vida. Só Deus, só Deus pode me ajudar.

Santo Antônio cumpre, por favor, o que você falou para mim no meu sonho, eu quero muito que esse sonho se realize. Por Deus, eu quero ser muito feliz com o meu amor verdadeiro. Só assim poderei acreditar em ti e ter fé”.

Além da ingenuidade cômica da cartinha que me fez rir, a Severina me fez refletir, pois ela representa um tipo de fé superficial e pragmática, quase infantil, que faz parte do imaginário de grande parte dos cristãos. Deus, ou Santo Antônio, ou anjos e outros santos, são todos vistos como um pronto socorro espiritual para acudir as causas urgentes. Urgentes para quem? Afinal, para Deus não existe “urgência”.

Paradoxalmente, muitos dos nossos pedidos desesperados, feitos com muita “fé”, na realidade demonstram falta de fé. Pois Deus é reduzido a um super secretário executivo para as causas urgentes e impossíveis. Resolvido o problema, esquecemos Deus. Muitos cristãos se aproximam de Deus como aqueles parentes que aparecem sorridentes na sua casa somente quando precisam pedir dinheiro emprestado.

Deus é nosso Pai, infinitamente amoroso e bondoso, e quer o melhor para cada um de nós, seus filhos. Deus conhece os nossos problemas e necessidades antes de nós, e os conhece mais do que nós mesmos os conhecemos. Falta-nos, muitas vezes, confiança no Pai e falta-nos também paciência para esperar a hora de Deus. O tempo de Deus nem sempre coincide com o nosso calendário. Nossa relação com Ele deve ser de filial intimidade e confiança, como a criança que se lança nos braços do Pai e se deixar carregar.

Semelhantes à Severina, muitos ficam bravos com Deus, se afastam dele, deixam de rezar, não frequentam mais a Igreja, enfim, esfriam o relacionamento com Ele, simplesmente porque Deus não fez a vontade deles, ou seja, Ele não atendeu aos pedidos e desejos expressos nas suas orações. Não sei como esses cristãos conseguem rezar a oração que Jesus nos ensinou, o Pai Nosso, ao dizer: Seja feita a vossa vontade. Pois, na prática, querem exatamente o contrário: que seja feita a vontade própria.

O orgulhoso termina desanimando de tudo. O orgulhoso, como uma criança pirracenta, ao perceber que a vida não é do jeito que ele quer, diz revoltado: Não brinco mais. E desanimado larga tudo para trás.

A Severina, na sua simplicidade, nos mostrou que o desejo dela é o desejo de todos nós: encontrar o amor verdadeiro que nos tornará felizes. A Severina um dia descobrirá o único amor verdadeiro que, de fato, nos torna felizes, cujo nome é: Deus Amor.

Bauru, 14 de julho de 2019.

Dom Rubens Sevilha, OCD.