Reportagens Diocesanas
publicado em: 29/06/2019
SÃO PEDRO E SÃO PAULO - POR DOM RUBENS SEVILHA

    Cristo é a rocha ou a pedra angular sobre a qual a Igreja vai sendo construída. Os apóstolos são considerados as colunas da Igreja. Todos nós fazemos parte desta construção. São Pedro afirmou na sua carta: “Vós sois pedras vivas” (1 Pedro 2,5). Aqui cabe um exame de consciência nos perguntando sobre que tipo de pedra estamos sendo na construção deste mundo. Alguns são “pedra no sapato” na vida alheia e só atrapalham. Outros são tão preguiçosos e ausentes que deixam um buraco vazio na parede da história que lhes competiria preencher realizando a sua missão nesta vida, isto é, fazer sempre o bem possível. Outros são tão fracos e covardes que se parecem com pedras porosas ou com tijolos de barro não queimados que, com as primeiras chuvas, se desmancham. Não dá para construir a nossa Casa Comum (Igreja) com essas pedras frágeis e omissas.

Consolamo-nos ao saber que São Pedro e São Paulo, como todo ser humano, também não eram perfeitos, pelo contrário. São Pedro, certa vez, falou o que não deveria falar e foi didaticamente repreendido por Jesus com uma fortíssima expressão: “Vá para trás, Satanás! Porque você não pensa nas coisas de Deus e sim nas coisas dos homens” (Mc 8,33). Curiosamente, essa frase não foi proferida contra o demônio quando o próprio estava tentando Jesus nos quarenta dias de jejum, no deserto, mas sim, dita para São Pedro.

    São Pedro viveu três anos na companhia de Jesus, ouviu seus sermões, viu seus milagres, sentou-se à mesa com Ele inúmeras vezes e, quando o Mestre foi preso e o clima começou a ficar pesado e hostil, São Pedro rápido como um camaleão mente covardemente para uma criada dizendo por três vezes: “Mulher, eu não o conheço!” (Lc 22,57).

    São Paulo foi ainda pior do que São Pedro. Paulo era meio fanático e um raivoso e cruel perseguidor dos primeiros cristãos. No encontro com Jesus seus olhos se abrem e ele começa a enxergar melhor a realidade e muda de vida (conversão). Após a Ressurreição e, sobretudo, depois do envio do Espírito Santo sobre os apóstolos (Pentecostes) as coisas melhoraram. Deus sempre toma a dianteira na condução do seu Povo e vai consertando aquilo que nós estragamos com a nossa dureza de coração e falta de juízo (pecado).

    Mesmo assim, São Pedro e São Paulo ainda vão dar os seus tropeços. Pedro teve a natural dificuldade em aceitar a novidade que foi a entrada dos não judeus (pagãos) ao cristianismo nascente. A certa altura São Pedro e São Paulo se estranharam. Pedro, novamente como um camaleão, quando estava entre os judeus se comportava conforme os costumes judeus, e quando estava com os pagãos se comportava conforme os costumes destes. São Paulo não gostou desse modo de agir dissimulado e deixou escrito: “Quando Pedro (Cefas) chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele merecia repreensão. E outros judeus caíram no mesmo fingimento de Cefas (Pedro), a tal ponto que até mesmo Barnabé se deixou levar pelo fingimento deles” (Gal 2,11-14).

    O mais bonito dessa história tão humana, tão parecida com as nossas, é que termina como deveria terminar entre pessoas que decidiram aceitar o convite para seguir Jesus, ou seja, primeiramente rezaram sobre o assunto pedindo a inspiração divina. Diante de um impasse a pergunta que sempre devemos fazer é: Qual é a vontade de Deus a esse respeito?

    Em segundo lugar, se reuniram para conversar e, como eram bons cristãos, souberam deixar de lado o ego inflado (orgulho) e se puseram a ouvir com o coração e com a alma (diálogo) o ponto de vista do outro.

    Concluíram tudo com uma carta que onde há uma maravilhosa e perfeitíssima afirmação: “O Espírito Santo e nós decidimos...” (Atos 15,28). E a vida continuou. Há dois mil anos a Igreja continua enfrentado as tempestades da história, deixando-se guiar pelo Espírito Santo e discernindo sinodalmente o melhor modo de agir. Santo  Inácio de Loyola sintetizou tudo isso sabiamente: “Faça tudo como se tudo dependesse de você; sabendo, porém, que tudo depende de Deus.”

 Dom Rubens Sevilha, OCD.

Bauru, 30 de junho de 2019.