Palavra do Bispo
Servidor de todos

Quem me acompanha nestas reflexões dominicais deve se lembrar de que, desde o começo do ano, venho dizendo que o Evangelho de Marcos – lido nas Missas em 2015 – tem como objetivo principal mostrar aos leitores quem é Jesus e, em consequência, quem são os discípulos de Jesus, ou seja, os cristãos.  

Para ressaltar que Jesus é todo poderoso, o Messias, o Salvador, o Libertador, Marcos relata todos os seus milagres, razão porque Jesus podia declarar que Ele falava como quem tem autoridade, que Ele é maior do que a lei, que Ele é o caminho, a verdade e a vida, que Ele é o bom Pastor. Por conseguinte, os seus discípulos, enquanto o noivo estava com eles, gozariam dos privilégios de desfrutar das vantagens de sua presença, por exemplo, não precisariam jejuar, se algum deles tivesse alguma dor, Jesus os curaria como curou a dor de cabeça da sogra de Pedro. Não é por menos que os discípulos discutiam quem sentaria à direita de Jesus, quem seria o maior no reino de Deus. 

No entanto, Marcos não deixa de acentuar que este mesmo Messias é também o “Filho do Homem” (Dan 7,13), o “Servo sofredor” (Is 53,10 s) sobre quem o Senhor fez cair as iniquidades e transgressões de todos nós, que viria salvar a humanidade, assumindo os sofrimentos e a cruz em obediência à vontade do Pai como sacrifício expiatório. Por conseguinte, os discípulos deveriam também seguir o Mestre no caminho da cruz e não só no das vantagens. É o que Marcos ensina, em resumo, com o seu Evangelho.

Em síntese, no Evangelho de Marcos ressurreição e cruz são inseparáveis na vida e missão de Cristo e, consequentemente, serão também na vida e missão de todo discípulo.

Pois bem, o trecho evangélico da Missa de hoje - Mc 9, 30-37 - exemplifica o se disse acima, isto é, aponta para a realidade da cruz de Cristo e da cruz do discípulo. Jesus dizia que “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, Ele ressuscitará”. Enquanto isso, os discípulos discutiam entre si quem seria o maior no reino de Deus. É que eles não pensavam diferentemente da mentalidade de todo judeu. Os judeus esperavam um Messias rei, como Davi, que viria restaurar um reino deste mundo, mais poderoso do que os reinos dos outros povos. Segundo disse Marcos, os discípulos não compreendiam as palavras de Jesus sobre sua morte, mas desconfiavam que Jesus não aceitava o pensamento deles, tanto que ficaram calados, porque tinham medo de perguntar a Jesus e de levar uma repreensão dele. Jesus, porém, disse-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” Mais adiante, ainda em Marcos, Jesus tornará a dizer que “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Para concretizar esse seu pensamento, “Jesus pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: ‘Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou’”.

Todo discípulo deve ter presente que o caminho seguro para seguir a Jesus é o da humildade, como fez o Mestre que se humilhou despojando-se à condição de escravo para ser obediente ao Pai até à morte sobre uma cruz (cf. Fl 2,6-8). O caminho para o discípulo, o qual ultrapassa todos os outros, é o do amor pela prática do serviço, como fez Jesus que veio para servir, sobretudo, os pobres, os sofredores, os pequenos deste mundo e amou-os até o fim. O caminho que exige do discípulo espírito de sacrifício quando se encontra a cruz, como aconteceu com o Mestre quando a encontrou, então, este é o verdadeiro caminho de Cristo, que leva à ressurreição, à vida eterna e feliz, gera em nós, desde aqui e agora, alegria, santidade e paz, e ao mesmo tempo fortalece o caráter e dá leveza espiritual ao nosso viver.

Fazendo-se “Servidor de todos”, Jesus demonstrou por palavras e obras que servir é o fundamento do amor.  

 Estimulados pela animação bíblica de setembro, recordemos que “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2Tim 3, 16).