Reportagens Diocesanas
publicado em: 21/07/2018
Você inzona sempre?

Dom Sevilha, OCD. 

Certa vez, ao ler o verbo inzonar, fui ao dicionário para ver o seu significado. Significa: fofocar. Fiquei mais admirado ainda ao descobrir que o dicionário (Houaiss) trazia setenta e sete sinônimos para a palavra mexerico: requeijitos, coscuvilhice, urdimalas, onzenice, sangangu, etc.

     Pela grande quantidade de sinônimos podemos deduzir que a fofoca é muito praticada. Aliás, uma teologia popular coloca a origem da fofoca antes da criação do mundo.

A fofoca original teria acontecido no céu entre os anjos!  Havia um anjo que estava se achando mais luminoso que os outros, por isso foi apelidado de “o luminoso”, isto é, Lúcifer.

Como todo fofoqueiro tem um grupinho que lhe apoia, o tal anjo luminoso começou a armar confusão no céu, colocando-se contra o chefe dos anjos: o arcanjo Miguel. O fato é que a intriga se espalhou, os ânimos se alteraram, os anjos se dividiram e terminou em briga séria.

A coisa chegou a tal ponto que Deus teve que intervir e mandou Miguel resolver o problema. Final da história: Lúcifer foi expulso do céu com sua turminha e juntos fundaram o inferno (Cf. Isaias 14,12; Ap. 12,4).

Depois que Deus criou a terra com tudo o que nela existe, o danado do Lúcifer continuou sua missão de criar confusão e mandou sua fofoqueira preferida, a cobrinha falante, para criar divisão entre Deus e o ser humano. E conseguiu. Adão e Eva terminaram expulsos do paraíso, e todos conhecemos muito bem as consequências.

Temos que ser mais cuidadosos e discretos com as palavras, para não pecar com a língua. O verdadeiro fofoqueiro justifica-se dizendo: “mas eu só falo a verdade!” Todavia, os fatos da vida alheia, que não são da nossa alçada, mesmo sendo verdadeiros, nem sempre devem ser propagados. Não obstante ser um fato verdadeiro, não nos dá o direito de alardeá-lo, indiscriminadamente.

Um dos aspectos do amor cristão é zelar pela boa fama das pessoas, mesmo quando elas mesmas não cuidam da própria fama e a jogam na lata do lixo.

Infelizmente, sobretudo nas redes sociais, a difamação corre solta. Pessoas aparentemente normais e “do bem” tornam-se monstros cruéis diante do suposto anonimato de um teclado.

Se já é um mal divulgar a “verdade” gratuita a respeito da vida alheia, o que chamamos de fofoca, pior ainda é espalhar o que é duvidoso ou mesmo mentiroso, a respeito dos outros, o que chamamos de calúnia.

Portanto, quem fala demais e impensadamente sobre a vida alheia, corre o risco de estar fofocando ou caluniando. Aconselho que fiquemos um pouco mais calados e, no silêncio orante e meditativo, aprendamos a usar melhor as palavras.

“Que da boca de vocês não saia nenhuma palavra que prejudique, mas palavras boas para edificação no tempo oportuno, a fim de que façam bem para aqueles que as ouvem” (Ef 4,29).

Que a luz do amor de Deus ilumine nossos pensamentos, palavras e ações. Nós temos, a nosso favor, a Luz verdadeira, o Sol nascente que veio nos visitar: Nosso Senhor Jesus Cristo.

Onde está Jesus, não há lugar para fofocas, brigas e divisões. O mal não vai nunca vencer o bem, pois, quem é maior do que Deus? A força do amor é infinitamente maior do que a falsa força do mal.

Não permitamos que a falsa luz do orgulho nos afaste de Deus. Sejamos humildes, reconhecendo nossa pequenez e fraqueza e deixemos a verdadeira luz de Deus brilhar em nós: “e os homens, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai que está no céu” (Mt. 5,16). Onde há amor e caridade, Deus aí está. Amém.