Reportagens Diocesanas
publicado em: 27/07/2019
VOCÊ SABE REZAR? - POR DOM RUBENS SEVILHA

   Talvez todos nós temos o mesmo desejo dos discípulos de Jesus: aprender a rezar. O trecho do Evangelho da liturgia da missa de hoje (Lucas 11,1-13) narra o seguinte pedido dos discípulos: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos.” Aparece por duas vezes o verbo ensinar. Portanto, a oração se ensina e se aprende. Os aprendizes da oração somos todos nós, mas quem são os professores da oração?

   O bom professor, antes de ensinar, primeiro ama a ciência da qual se tornará mestre. Os discípulos do Evangelho tiveram o próprio Jesus como Mestre da oração. Todo aprendizado começa com a verdade dos fatos, do testemunho; depois vêm as palavras explicando e transmitindo os fatos. “Jesus estava rezando num certo lugar,” narra o Evangelho.  O exemplo orante de Jesus despertou a curiosidade e o desejo dos discípulos de aprender a rezar também.

   Os pais cristãos são os primeiros professores da oração para os seus filhos. Os pais são os responsáveis pela vida espiritual da própria família. No dia do casamento, diante do altar, vocês responderam sim quando o padre perguntou: “Estais dispostos a receber com amor os filhos que Deus lhes confiar, educando-os na lei de Cristo e da Igreja?” e o padre rezou pedindo: “Pai Santo, concedei-lhes que sustentem com seu trabalho o lar hoje fundado e eduquem seus filhos segundo o Evangelho, a fim de participarem, no céu, da vossa família.”

   Os pais modernos sabem rezar? Os pais modernos sabem ensinar seus filhos a oração? O lugar próprio para aprender a rezar, depois da família, é a Igreja. Nós, os pastores da Igreja (bispos e padres), com o auxílio dos fiéis (catequistas, ministros, leigos engajados), somos os mestres da oração na Igreja Católica. Os católicos sabem rezar? Embora Jesus exortou que “na oração não devemos multiplicar as palavras”, ainda somos tentados a medir a oração pela quantidade de palavras ou pela quantidade de horas.

   A qualidade de um bom relacionamento não se mede pela quantidade de palavras pensadas ou faladas, sejam escritas, espontâneas, gritadas ou sussurradas. “A oração não consiste em muito pensar, mas em muito amar”, afirmou Santa Teresa de Ávila. A mesma santa, doutora e mística definiu a oração “como uma conversa de amigos (tratar de amistad, no original espanhol), muitas vezes e a sós, com quem sabemos que nos ama.”

Ao nos ensinar a rezar, a primeira palavra que Jesus nos faz dizer é: Pai nosso. O Papa Francisco observou que nesta oração falta uma palavra: a palavra eu. Tudo está no plural: Pai nosso, pão nosso, nossas ofensas, etc. Curiosamente, hoje temos certa preferência pelas orações e músicas religiosas escritas na primeira pessoa do singular. Preferimos o eu ao “nós”, embora a liturgia clássica cante Miserere nobis, Domine (Senhor, tende piedade de nós).

   O essencial da oração é nos colocarmos junto do Pai Amoroso que está sempre junto de nós. Não é preciso pedir a presença dele, pois Ele está sempre presente e não nos abandona jamais. Nós que, infelizmente, nos distanciamos do Pai e cabe a nós nos aproximarmos dele. Afirmou São João da Cruz que “quando alguém decide procurar Deus, Deus já o estava procurando muito tempo antes”, em consonância com a Palavra de Deus ao declarar que “Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4,19).

   Se você acha que não sabe rezar, comece assim: coloque-se em silêncio diante de Deus e não fale nada, não pense nada. Ele está olhando para você. Isto basta! Amém.

Bauru, 28 de julho de 2019.

Dom Rubens Sevilha, OCD